terça-feira, 30 de novembro de 2010

Os riscos de trocar o dia pela noite

Os riscos de trocar o dia pela noite
A Organização Mundial da Saúde adverte: o trabalho em turnos fixos ou irregulares pode causar câncer


NOITE EM SÃO PAULO: inversão de horários tem custo para a saúde individual e para a sociedade
Quem trabalha em turnos tem maior risco de desenvolver câncer. A advertência é da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (AIPC) da Organização Mundial da Saúde (OMS), que acaba de classificar o trabalho em turnos, fixos ou irregulares, como possível agente carcinogênico, o que o coloca na mesma categoria do tabaco, da radiação ultravioleta e das drogas anabolizantes. As evidências que motivaram tal medida foram publicadas em dezembro de 2007 na revista The Lancet Oncology.

Os pesquisadores examinaram oito estudos epidemiológicos e constataram que em seis o trabalho em horários irregulares se associou a um pequeno aumento na incidência de tumores. Imagina-se que a perturbação crônica dos ritmos circadianos, que regulam o sono, a temperatura corporal e a secreção de diversos hormônios, predisponha o organismo ao desenvolvimento de células malignas. Cerca de 20% da população ativa mundial trabalha em turnos, principalmente no setor de saúde, transporte e comunicação.

GRANDES ACIDENTES
Em maio de 2007 as pesquisadoras brasileiras Cláudia Moreno, Frida Marina Fischer e Lúcia Rotenberg abordaram na Mente&Cérebro os riscos individuais e coletivos ligados à inversão dos horários de trabalho. Pouca gente sabe, mas grandes acidentes de repercussão mundial, como o desastre nuclear de Chernobyl e a explosão do ônibus espacial Challenger estão relacionados a jornadas excessivas de trabalho de pessoas que haviam dormido muito pouco nos dias anteriores.

Fonte: revista The Lancet Oncology.

O que é um psicopata?

O que é um psicopata?
Cercada de mitos, a psicopatia nem sempre está associada à violência e, ao contrário do que se imagina, pode ser tratada
por Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz

O termo “psicopata” caiu na boca do povo, embora na maioria das vezes seja usado de forma equivocada. Na verdade, poucos transtornos são tão incompreendidos quanto a personalidade psicopática.

Descrita pela primeira vez em 1941 pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley, do Medical College da Geórgia, a psicopatia consiste num conjunto de comportamentos e traços de personalidade específicos. Encantadoras à primeira vista, essas pessoas geralmente causam boa impressão e são tidas como “normais” pelos que as conhecem superficialmente.

No entanto, costumam ser egocêntricas, desonestas e indignas de confiança. Com freqüência adotam comportamentos irresponsáveis sem razão aparente, exceto pelo fato de se divertirem com o sofrimento alheio. Os psicopatas não sentem culpa. Nos relacionamentos amorosos são insensíveis e detestam compromisso. Sempre têm desculpas para seus descuidos, em geral culpando outras pessoas. Raramente aprendem com seus erros ou conseguem frear impulsos.

Música contra sintomas da depressão

Música contra sintomas da depressão


MUSICOTERAPIA foi mais eficaz na redução dos sintomas de depressão que psicoterapia convencional
A musicoterapia pode reduzir os sintomas da depressão, segundo revisão sistemática publicada pela Biblioteca Cochrane, organização mundial dedicada ao estudo da eficácia de intervenções terapêuticas. Os pesquisadores analisaram cinco estudos que avaliaram o uso da música no tratamento de pessoas deprimidas, dos quais quatro mostraram que o método foi mais eficaz que outras técnicas psicoterápicas que não usam recursos musicais.

“Embora a evidência tenha origem em estudos de pequeno porte, ela sugere que essa é uma área que merece mais investigação”, diz a arteterapeuta britânica Anna Maratos, coordenadora da pesquisa. O interesse pela música como recurso terapêutico não é novo, mas tem crescido nos últimos anos devido a inúmeras experiências que mostram a influência benéfica da combinação de ritmos, melodias e harmonias em uma série de transtornos psíquicos. Alguns bons exemplos estão no livro mais recente do neurologista britânico Oliver Sacks, Alucinações musicais, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

Diferenças na resposta aos medicamento

O efeito das drogas antidepressivas costuma variar de pessoa para pessoa. De fato, em alguns pacientes, elas podem não surtir efeito algum. Incompreendida por muitos anos, a razão dessa variabilidade começa agora a ser decifrada pela genética.

Estudo publicado pela revista Neuron demonstrou que 11 variantes do gene que codifica uma proteína transportadora no cérebro são responsáveis pela menor eficácia de medicamentos como o citalopram (vendido no Brasil como Celexa, Cipramil e Cipran, entre outros) e venlafaxina (Alenthus, Efexor, Venlaxin etc.). Segundo os autores, os resultados ressaltam a necessidade da prescrição personalizada de drogas para depressão de acordo com o perfil genético do paciente. “Assim evitaríamos que um paciente tome um remédio que certamente não fará efeito, o que, além de frustrante, é um desperdício”, afirma Manfred Uhr, coordenador do estudo.

As lembranças de cada um...

As lembranças de cada um
por Nelson Cowan

A capacidade de armazenar recordações e “filtrá-las” é uma característica específica de cada indivíduo – uma espécie de “impressão digital”. Não por acaso, a memória de trabalho (ou de curto prazo, que nos permite guardar temporariamente um número limitado de informações, como números de telefones que usamos com certa freqüência, por exemplo) varia consideravelmente de uma pessoa para outra.

De acordo com o estudo sobre esse tipo de memória desenvolvido pelos pesquisadores americanos Fiona McNab e Torkel Klingberg, o processo de seleção das lembranças que devem ser guardadas ou dispensadas pode ser comparado aos dos filtros de spam do computador. O funcionamento dessas “peneiras mentais” situadas nos gânglios basais pode comprometer ou facilitar a lembrança de números, nomes de pessoas, compromissos etc. Filtros ineficientes causam, por exemplo, atividades desnecessárias e excessivas nas regiões cerebrais que “arquivam” as informações da memória de trabalho – as áreas parietais posteriores, situadas ao longo do topo do cérebro em direção ao dorso.

Poderíamos dizer que essas regiões desempenham o papel do disco rígido do computador, mas quando se trata de memória de trabalho, é mais adequado afirmar que sua função não é tanto guardar dados permanentemente, mas sim armazena-los temporariamente da memória à qual temos acesso de forma aleatória. É aceitável fazer um paralelo com a memória RAM (random access memory), já que as informações são mantidas enquanto estão em uso ou poderão ser usadas em breve.

Embora não existam evidências válidas sobre a importância da eficiência de filtragem de itens irrelevantes da memória de trabalho é necessário ter cuidado para não negligenciar a possibilidade de que as diferenças na capacidade de RAM também afetam a memória de trabalho. Se o tamanho da RAM realmente for importante, então a correlação entre seu tamanho e a eficiência de filtragem pode ser imperfeita. Por analogia, as velocidades máximas de sprint e as resistências dos indivíduos podem estar imperfeitamente correlacionadas, mesmo que as duas qualidades dependam de certos fatores comuns, como o estado geral de saúde.

O desafio de permanecer sóbrio

O desafio de permanecer sóbrio
Compreender como o álcool altera a química do cérebro oferece aos pesquisadores e aos próprios pacientes maiores possibilidades de controlar a dependência
por Andreas Heinz

Ex-alcoólatras têm dificuldade de resistir à ânsia de beber em duas situações particularmente desafiadoras. Mas, felizmente, a compreensão do que acontece em seus cérebros sob essas circunstâncias está favorecendo o entendimento dos neurobiólogos a respeito de como o uso crônico do álcool modifica o cérebro. As descobertas sugerem medidas que podem ajudar as pessoas a permanecerem abstêmias.

O caso seguinte ilustra uma das situações de maior tentação. O paciente H. não havia ingerido uma gota de bebida havia muitas semanas graças a um programa radical de abstinência de álcool, mas uma simples caminhada na qual passasse em frente ao bar e restaurante Pete’s Tavern, em Nova York, em qualquer noite apagava quase por completo sua vontade de permanecer sóbrio. Durante o dia ele não sentia o desejo pelo álcool, mas quando passava pelo estabelecimento à noite – via a luz aconchegante através das janelas e ouvia o tinir dos copos –H. sentia uma forte tentação de entrar lá e pedir uma cerveja. Pesquisadores de dependências chamam esse fenômeno de “desejo condicionado”. Se uma pessoa sempre consumiu álcool numa mesma situação, um encontro com o estímulo familiar irá tornar a sensação de necessidade da substância quase irresistível. Então, mesmo depois de anos de abstinência, consumir um único drinque pode desencadear um desejo poderoso de beber mais e mais.

O perigo das alturas

O perigo das alturas
Profissionais ou amadores, alpinistas de grandes altitudes sabem bem os riscos que correm ao praticar o esporte; a maioria, porém, desconhece os danos que o ar rarefeito pode causar ao cérebro
por Douglas Fields

No final dos anos 1890, em um laboratório a 4.554 metros de altitude, num pico da cadeia de Monte Rosa, nos Alpes italianos, o fisiologista Angelo Mosso fez a primeira observação direta dos efeitos da altitude elevada no cérebro humano. Mosso examinou, a olho nu, a caixa craniana de um homem cujo cérebro havia sido parcialmente exposto em um acidente e registrou mudanças em sua intumescência e pulsação.

Recentemente, foi feita uma nova experiência, utilizando técnicas não-invasivas de imageamento cerebral. Para aqueles que, como eu, gostam de escalar, os resultados não foram animadores. O neurologista Nicolás Fayed e seus colegas de Zaragoza, na Espanha, fizeram um rastreamento, com ressonância magnética, em 35 montanhistas (12 profissionais e 23 amadores) que haviam retornado de expedições a picos de grandes altitudes. Entre eles, 13 haviam tentado escalar o Everest. Os resultados apontaram que os alpinistas de grandes altitudes – sejam esportistas de fim de semana ou profissionais experientes – ao voltar de sua aventura apresentam algum tipo de dano cerebral.

EFEITOS DURADOUROS
Embora a tolerância de uma pessoa à hipoxia (falta de oxigênio) varie de acordo com o condicionamento psicológico e físico inato, nenhum alpinista está imune a ela. Seus efeitos podem ser agudos, afetando o cérebro apenas durante a escalada em alta altitude ou duradouros, como apontou o estudo de Fayed.

A menina que sofria do “mal de mãe”

A menina que sofria do “mal de mãe”


(As duas mães de Mila, de Clara Vidal. Tradução de Paulo Schiller. Edições SM, 2006, 78 págs.,
Especialistas estimam que um terço das pessoas que apresentam sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) são crianças e adolescentes. O diagnóstico normalmente é difícil e muitas vezes só é possível quando pais ou professores observam no comportamento do paciente tendência ao perfeccionismo, isolamento e excessiva timidez. É muito comum que as crianças não reconheçam que suas atitudes são exageradas e sem sentido, ou tenham vergonha, preferindo escondê-las dos adultos. O quadro se agrava com a dificuldade dos pais em aceitar que o filho esteja com o distúrbio, por constrangimento diante dos outros. As duas mães de Mila, da escritora francesa Clara Vidal, apresenta a dolorosa história da menina que, dos 9 aos 15 anos, desenvolve rituais obsessivos como defesa para as situações de violência psíquica que enfrenta dentro de casa. O livro faz parte da coleção Estado de alerta, da editora SM, que reúne histórias sobre momentos de crise protagonizados por crianças ou adolescentes.
Recomendo, muito bom...

Prazer, sou deprimida

Prazer, sou deprimida
Recheado de expressões joviais que celebram as “delícias” da vida monitorada por medicamentos, texto apresenta depoimentos triunfantes de consumidores de antidepressivos
por Maria Rita Kehl

“Muito prazer, sou uma F34.1”. Assim a jornalista Cátia Moraes, autora de Eu tomo antidepressivo, graças a Deus!, lançado pela editora Record, manifestou o alívio que sentiu ao encontrar, na lista de sintomas elaborada pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10) da Organização Mundial de Saúde (OMS), a descrição dos transtornos de humor que “explicavam” sua depressão.

A frase não é tão irônica quanto parece. A depressão, que muitos analistas e sociólogos consideram o sintoma mais expressivo das contradições sociais do século XXI, tornou-se, com o aval da ciência, uma prótese de identidade para os sujeitos perdidos entre as referências voláteis do mundo contemporâneo.

Por isso mesmo, é uma doença com enorme potencial de mercado. Se os deprimidos incomodam por sua inapetência para a grande festa do consumo que anima a vida social no mundo industrializado, seu apetite por novas medicações vem alavancando as vendas da indústria farmacêutica, que crescem em torno de 22% ao ano no Brasil, e movimentam anualmente US$ 320 milhões de dólares.

Do ponto de vista da psicanálise, a depressão resulta do empobrecimento da vida psíquica, sobretudo no que se refere à possibilidade de enfrentamento de conflitos. O abuso de soluções medicamentosas acaba por ser cúmplice desse encolhimento subjetivo. Daí que o avanço mercadológico dos antidepressivos não corresponda a uma diminuição dos casos de depressão. Bem ao contrário: a supressão química do sujeito do inconsciente só faz aumentar o mal-estar. A introspecção, a tristeza, o recolhimento, a contemplação – a vida do espírito, enfim – são desvios que atrapalham o rendimento de uma vida cuja qualidade se mede por critérios de eficiência, competência e disponibilidade para a diversão.

Plantas que trazem alívio

Plantas que trazem alívio


Na busca de novas drogas analgésicas, muitos pesquisadores brasileiros partem da observação do uso tradicional de plantas medicinais. Foi assim que a Croton cajucara – planta amazônica conhecida como sacaca – despertou o interesse de Frederico Argollo Vanderlinde, do Laboratório de Farmacologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A casca da sacaca é facilmente encontrada nos mercados de Manaus e Belém. Dois usos chamaram a atenção do farmacologista: contra processos inflamatórios e, paradoxalmente, contra úlceras gástricas. Em colaboração com a fitoquímica Maria Aparecida Maciel, do Departamento de Química da Universidade Federal do Rio Grande Norte, Vanderlinde identificou compostos terpenóides no extrato da casca da planta; efeitos antiinflamatório e antinociceptivo foram confirmados em animais. Contudo, eles só apareceram em doses muito altas, e a baixa solubilidade desses compostos exigiu grandes quantidades de solvente, resultando em uma mistura de elevada toxicidade.

Apesar dos resultados pouco animadores, os pesquisadores testaram outra fração do extrato das cascas da sacaca. Encontraram nela um alcalóide – ainda não identificado – que parece pertencer ao grupo da morfina. Em animais, essa fração apresentou um potente efeito antinociceptivo, reversível por um antagonista da morfina - logo esse alcalóide deve atuar no mesmo receptor opióide. No entanto, ficou provado que essa fração do extrato não exerce efeitos sobre o SNC, portanto o composto deve agir apenas sobre receptores opióides presentes nas terminações periféricas dos nociceptores, imaginam os cientistas, que atualmente trabalham no isolamento desse alcalóide da sacaca.

Outra planta pesquisada por Vanderinde, em colaboração com Sônia Soares da Costa, do Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é o Sedum dendroideum, um arbusto ornamental conhecido como bálsamo, cujo chá das folhas é usado contra dores e inflamações. Esses efeitos foram confirmados em testes com animais usando doses baixas do extrato aquoso. Experimentos recentes sugerem que o efeito antiinflamatório pode ser mediado por mecanismos semelhantes aos dos antiinflamatórios esteroidais - os corticoesteróides (drogas potentes, mas que causam muitos efeitos adversos). Quatro flavonóides já foram identificados nesse extrato do bálsamo. Se eles serão mais ou menos vantajosos que os atuais corticoesteróides, é o que os pesquisadores pretendem responder futuramente. (Luciana Christante)

Loucos são os outros

Loucos são os outros
Conviver com a doença mental, em suas inúmeras e perturbadoras variantes, é uma das mais complexas questões éticas da vida em sociedade
por Sidarta Ribeiro

Noite de sexta-feira e a multidão se harmoniza para ouvir chorinho em frente a um bar. De repente o som de uma garrafa explodindo nos paralelepípedos. Gritos e uma impressionante seqüência de garrafadas. As pessoas procuram a origem da confusão e afinal detectam uma mendiga colérica a lançar cascos de cerveja sobre pessoas e carros. Furioso porque sua picape foi atingida, um policial saca um revólver e avança em direção à mulher, que não se intimida e vitupera. O policial olha alternadamente para a multidão e para a mendiga, visivelmente tentado a executá-la à queima-roupa. Se estivesse só, dispararia? Mas não diante de tanta gente, que ele não é maluco… A mendiga é afinal contida por vários homens, lançada sobre cacos de vidro e espancada. Quase uma hora depois, desfalecida, é encaminhada ao hospital psiquiátrico.

A convivência com a doença mental, em suas inúmeras e perturbadoras variantes, é um dos mais complexos problemas éticos da vida em sociedade. Qualquer opinião sobre o tema precisa levar em consideração a dor sofrida e causada pelo doente mental. Em sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo, o psiquiatra Alexander Almeida verificou que médiuns do espiritismo alucinam como pacientes esquizofrênicos, mas não apresentam sofrimento psíquico nem desajuste social. De áugure na Antigüidade, a interno de hospício após a Idade Média, o louco percorreu um penoso caminho de segregação. Na década de 30, a descoberta dos efeitos amnésicos e antidepressivos do eletrochoque disseminou um tratamento poderoso cujo abuso se tornou infame. O advento dos psicofármacos, pouco depois, abriu as portas para uma terapêutica aparentemente mais humana. Entretanto, os efeitos colaterais dessas drogas podem ser tão adversos que seu uso muitas vezes resolve apenas o problema dos que convivem com o louco, e não o seu próprio sofrimento. Impregnado e embotado, o louco medicado passou a habitar um mundo cinzento e retesado.

Hoje em dia, drogas de última geração prometem restaurar vida normal ao doente mental. Mas são remédios caríssimos cujas patentes pertencem às grandes corporações farmacêuticas. Via de regra o governo privilegia as drogas antigas e baratas devido às patentes vencidas. Investe também em métodos alternativos que tratam a doença mental através da integração comunitária, psicoterapias, arte, paciência, bom humor e amor. Resulta desse contexto um choque violento entre o Ministério da Saúde e a Associação Brasileira de Psiquiatria, numa série de oposições simplistas mas esclarecedoras: saúde pública versus privada, comunidade versus consultório, pobre versus rico, amador versus profissional, metafísica versus ciência, necessidades populares versus interesses das grandes corporações.

Um absurdo dentro do outro como numa boneca russa: a fragilidade da miséria, o descontrole da polícia, a turba raivosa, o abandono da família, a dedicação insana dos profissionais da saúde, a exposição do louco à demência alheia, o remédio barato e obsoleto, o remédio bom de custo proibitivo, os cientistas em alienação molecular e os executivos malucos por dinheiro. Que loucura...

Memórias consolidadas

Memórias consolidadas
Transformação de nossas lembranças em registros permanentes envolve a reorganização de redes cerebrais que processam estas informações


A conversão de uma memória de curto para longo prazo requer mudanças dentro do cérebro que protegem nossas lembranças e conhecimentos tanto da interferência de estímulos como de perdas por danos ou doenças. Esse processo em que as experiências são permanentemente registradas requer tempo e chama-se consolidação.

“As porções celular e molecular da consolidação da memória ocorrem geralmente nos primeiros minutos ou horas após o aprendizado e resultam em alterações nos neurônios ou em conjuntos deles”, afirma o professor Alison R. Preston, do Centro de Aprendizagem e Memória da Universidade do Texas, em Austin.

A mudança envolve a reorganização de redes cerebrais que lidam com o processamento de memórias individuais e pode, por isso, demorar dias ou até anos. A demora ocorre por relacionar também as memórias declarativas – lembranças de fatos gerais e eventos específicos – e depende da função do hipocampo e de outras estruturas do lobo temporal médio do cérebro.

Alison R. Preston

Gêmeos idênticos não são geneticamente iguais

Gêmeos idênticos não são geneticamente iguais
por Charles Q. Choi

PAR IMPERFEITO: Apesar de terem o mesmo DNA, gêmeos idênticos apresentam números diferentes de cópias de genes.
Gêmeos idênticos podem ser parecidos, mas seu DNA não é o mesmo – como sempre se acreditou –, mostra um novo estudo. Além disso, cada gêmeo se torna cada vez mais diferente em termos genéticos com o passar dos anos. Essas descobertas podem não só ser muito úteis para investigadores forenses, para que possam apontar qual gêmeo tenha possivelmente cometido um crime, mas também para destacar como os genomas humanos estão sujeitos a mudanças, gêmeos ou não.

Idênticos ou monozigóticos, gêmeos são o resultado de um óvulo fertilizado, ou zigoto, dividido em dois. Como têm origem na mesma célula, são considerados fisicamente idênticos, com exceção de características determinadas por fatores ambientais, como impressões digitais, e por condições do útero.

Em alguns casos as diferenças físicas entre gêmeos monozigóticos podem ser grandes: um pode manifestar uma doença, como o diabetes, e o outro, não. Para constatar se mudanças genéticas podem ser a base dessas disparidades, os geneticistas moleculares Jan Dumanski e Carl Bruder, ambos da Universitdade do Alabama, em Birmingham, investigaram nove pares de gêmeos monozigóticos; na pesquisa, cada par tinha um gêmeo com doença de Parkinson ou outro distúrbio neurológico similar. Os pesquisadores descobriram que todos os nove pares apresentaram diferenças genéticas. Mais especificamente, encontraram variações em uma série de cópias de genes.

Em seguida os geneticistas examinaram 10 pares de gêmeos monozigóticos saudáveis, sem nenhuma diferença significativa visível. Inesperadamente, em um determinado par de gêmeos, eles confirmaram que um irmão não apresentava uma parte do gene do cromossomo 2, mas que estava presente no outro gêmeo. Descobertas preliminares sugeriram que oito outros pares apresentavam variações no número de cópias também.

Entre o sonho e a ficção

Entre o sonho e a ficção
Conexão entre criação literária e a fantasia pode surgir nos sonhos; o mundo onírico abre as portas do inconsciente e traz respostas para o escritor
por Moacyr Scliar


Há exatos 100 anos, em 1908, Sigmund Freud deu uma palestra (depois transformada em texto) intitulada Ficcionistas e seus devaneios. Nela, o pai da psicanálise enfatizava a conexão entre criação literária e fantasia, que, no ser humano pode surgir de várias maneiras, através de devaneios, de sonhos. Essa conexão explica a razão pela qual, desde há muito, a literatura fala sobre o sonhar. Para começar, na Bíblia as narrativas sobre sonhos são numerosas, mas o mesmo ocorre em narrativas míticas, folclóricas, o que levou Joseph Campbell a afirmar: “Mitos são sonhos públicos, sonhos são mitos privados”.

Os grandes escritores trabalharam muito com a idéia do sonho, e Shakespeare é disso um exemplo. Afinal, foi ele quem disse, em A tempestade: “Somos feitos da mesma matéria que os nossos sonhos”. O tema é recorrente na obra shakesperiana; uma de suas peças tem como título Sonho de uma noite de verão. Ali há um mundo da realidade (a cidade de Atenas) e um dos sonhos, povoado por fadas e elfos, ambos os mundos interagindo constantemente. Muitos dos sonhos shakesperianos têm caráter premonitório. Assim, antes do assassinato de Júlio César, na peça do mesmo nome, sua esposa Calpúrnia vê, em sonhos, a estátua de César, da qual o sangue jorra “por 100 orifícios”.

O elo perdido da fala

O elo perdido da fala
Nova pesquisa sugere que uma área do cérebro dedicada ao processamento de vozes não é unicamente humana, como durante muito tempo se acreditou
por Pascal Belin

O uso de vocalizações – como grunhidos, cantos ou latidos – é extremamente comum em todo o reino animal. No entanto, a espécie humana é a única em que essa capacidade alcançou a sofisticação e a eficiência comunicativa da fala. Mas como nossos ancestrais se tornaram os únicos animais falantes, milhares de anos atrás? Essa mudança ocorreu de forma abrupta, envolvendo a aparição de uma nova região cerebral ou de um outro padrão de conexões mentais? Ou ela ocorreu por meio de um processo evolucionário gradual, no qual estruturas cerebrais, já presentes até certo ponto em outros animais, foram colocadas em prática em um uso mais complexo?

Um estudo recente publicado na Nature Neuroscience rendeu novas informações, ajudando a desvendar o que pode constituir o “elo perdido” entre o cérebro de humanos e de outros animais: evidências de que uma região cerebral, especializada no processamento da voz tem uma contraparte no cérebro do macaco reso.

O neurocientista Christopher I. Petkov, do Instituto Max Planck para Cibernética Biológica, em Tübingen, na Alemanha, coordenou um grupo de pesquisadores que usou exames de ressonância magnética funcional para medir a atividade cerebral de macacos acordados que ouviam diferentes categorias de sons, incluindo vocalizações de animais de sua espécie.

Células-tronco para restabelecer a visão

Células-tronco para restabelecer a visão
Transplante é usado na cura da degeneração macular
por Alison Snyder

Milhões de células fotorreceptoras que residem na retina humana captam luz e a transmitem sinais para o cérebro. Quando essas células coletoras de luz morrem, há perda de visão. Na esperança de reverter a cegueira, pesquisadores passaram a investigar as células-tronco, e experimentos recentes mostraram que elas poderiam substituir fotorreceptores perdidos na forma mais comum de cegueira, a degeneração macular. O problema afeta 10% dos americanos com mais de 65 anos. Ele danifica primeiramente a mucosa protetora chamada epitélio do pigmento da retina (EPR), que transporta nutrientes para as células fotorreceptoras e é vital para sua sobrevivência. Um transplante de tecido EPR novo pode salvar esses fotorreceptores moribundos.

A abordagem, porém, não costuma ser viável por causa da grande quantidade de tecido necessária para tratar milhões de pessoas que mostram os sinais de início da doença. cientistas da empresa de biotecnologia Advanced Cell Technology, em Worcester, Massachusetts, conseguiram gerar uma fonte abundante de células EPR. Em 2004, criaram uma forma de persuadir células-tronco embrionárias a se transformar em tecido EPR transplantável. Num experimento seguinte, injetaram as células transformadas nos olhos de ratos com um defeito genético localizado no tecido EPR, que levava à destruição de suas células fotorreceptoras. Os pesquisadores relataram no periódico Cloning and Stem Cells de setembro de 2006 que várias semanas após o transplante, tempo suficiente para os efeitos da doença surgirem, os ratos que haviam recebido o tratamento ainda eram capazes de acompanhar listras num cilindro em rotação duas vezes melhor que os não tratados. Sua visão, entretanto, ainda estava bem abaixo do normal.

Segredos do cavalo-marinho

Segredos do cavalo-marinho
O hipocampo, um dos centros de processamento da memória, pode também ter papel importante na capacidade de fantasiar e desenvolver idéias
por Andre Fenton

Os neurologistas são unânimes ao afirmar que o hipocampo (uma região do cérebro que recebe esse nome por causa de seu formato, que lembra o de um cavalo-marinho) é crucial para a memória. Mas os estudiosos divergem amplamente sobre como o ser humano cria e gerencia as recordações, e principalmente, sobre como esse processo cognitivo se desenvolve. Recentemente, essa polêmica foi vista de um novo ângulo: não seria o hipocampo fundamental também para a imaginação? Além de propor um novo papel para essa área cerebral, a descoberta sugere a existência de um mecanismo de “construção narrativa”, comum à memória, à imaginação e ao pensamento. Tal hipótese abre novas e interessantes perspectivas. Imagine, por exemplo, que você recebeu um convite para fazer um cruzeiro ao Caribe; segundo o cientista Demis Hassabis, aceitar esse convite é impossível sem envolver o hipocampo na decisão. O primeiro estudo publicado pelo pesquisador sobre esse assunto examina objetivamente as bases neurológicas do processo de imaginação dos fatos, que no jargão neurocientífico é chamado “construção”.

Hassabis afirma que para imaginar um evento são necessárias algumas operações usadas na recordação de situações, como algum grau de fantasia e a recuperação seletiva de informações relevantes da memória factual ou semântica. O estudo parte da hipótese de que a construção requer consciência da organização narrativa, temporal e espacial da experiência imaginada, ou seja, dos mesmos elementos estruturais importantes para recuperar episódios da memória autobiográfica.

Psicoterapia para sobreviventes

Psicoterapia para sobreviventes
Técnicas terapêuticas e capacitação de agentes de saúde ajudam na recuperação de pessoas com stress pós-traumático causado por violência, conflitos e miséria
por Manson Inman


Há quatro anos, o menino chamado aqui pelo nome fictício de Mohamed Abdul, de 13 anos, escapou da guerra civil na Somália. Por muito tempo teve pesadelos e flashbacks das cenas terríveis que vivenciou. Aos 9 anos, foi pisoteado por uma multidão que fugia pelas ruas e ficou internado por duas semanas. Um mês após, presenciou as conseqüências aparentes de um massacre: 20 corpos boiavam no oceano. Pouco tempo depois, militares atiraram em sua perna, deixaram-no inconsciente e estupraram Halimo, sua melhor amiga, uma garota de sua idade. Durante sua recuperação no hospital, Mohamed sofria não só pela dor física, mas, principalmente, sentia-se devastado pelo medo e pela culpa de não ter conseguido ajudar a menina. Ele tinha acessos de fúria sem ser provocado e confundia pessoas que conhecia com os bandidos e ameaçava matá-las. Meses depois, deixou sua terra natal e foi para um assentamento de refugiados em Nakivale, em Uganda. Nessa época, afirmou: “Eu sentia duas personalidades dentro de mim. Uma era esperta, boa e normal; a outra, louca e violenta”.

Ele sofria de transtorno de stress pós-traumático, uma desordem caracterizada pelo medo e pela repetição de uma recordação intensa e vívida
do evento traumático. Felizmente, esse campo de refugiados contava com um recurso: o psicólogo Frank Neuner, da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, estava oferecendo aos 14.400 africanos do acampamento, principalmente ruandeses, a “terapia da exposição narrativa”. Essa abordagem persuade os sobreviventes do trauma a assimilar as memórias à própria história de vida para que possam recuperar o equilíbrio emocional. Depois de quatro sessões, com duração de 60 a 90 minutos cada, os sonhos repetitivos e as recordações de Mohamed desapareceram; ainda se assustava com facilidade, mas não perdia o controle e os médicos o consideraram curado.

Historicamente, pesquisadores e trabalhadores de serviços humanitários de países em desenvolvimento negligenciaram a saúde mental, focando problemas como subnutrição, doenças e mortalidade infantil. Para o psiquiatra Atif Rahman, da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, “o que mudou nos últimos dez anos é o entendimento de que o bem-estar físico não pode ser separado do mental”.

Experiências recentes com psicoterapia mostram que é possível melhorar a vida de sobreviventes de guerra, como o pequeno Mohamed, de mães paupérrimas com depressão pós-parto e de outras vítimas do stress causado pela pobreza. A chave para a viabilidade desses programas inclui o treinamento de cidadãos comuns para atuarem como conselheiros. Em alguns casos, o procedimento pode ser coadjuvante de outras terapias, mas há situações em que ajudam tanto que é possível dispensar o uso de psicotrópicos. Embora muitos considerem distúrbios mentais uma espécie de praga da vida moderna, algumas desordens são, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais prevalentes nos países em desenvolvimento. Das dúzias de guerras e conflitos armados ao redor do mundo, em quase todas as nações, a violência leva ao transtorno do stress pós-traumático, dificultando a recuperação das pessoas – e do país – após o fim dos conflitos.

A doença do imprevisto

A doença do imprevisto
A esclerose múltipla, uma patologia degenerativa que afeta principalmente pessoas com idade entre 20 e 40 anos, muitas vezes é confundida com stress; diagnóstico precoce é fundamental para manter a qualidade de vida do paciente
por Luciana Christante

Quando se fala em doenças neurodegenerativas, a maioria das pessoas logo pensa em idosos com limitações físicas e principalmente cognitivas, que os impedem de levar uma vida autônoma, como no Alzheimer ou no Parkinson, por exemplo. Embora a esclerose múltipla pertença à categoria de distúrbios que provoca degeneração neurológica, difere em pelo menos dois aspectos. Em primeiro lugar porque nessa patologia a incapacidade física é bem mais pronunciada que a cognitiva, o que à primeira vista poderia até ser um atenuante, não fosse pela segunda característica: a doença se manifesta quase sempre entre os 20 e os 40 anos, isto é, no auge da vida produtiva do indivíduo. O choque do diagnóstico, que costuma vir depois de uma via-sacra por vários médicos e pode levar anos, traz inicialmente a revolta e, depois, o medo de que as seqüelas sabotem pouco a pouco a vida profissional, pessoal e familiar, afligindo principalmente aqueles com filhos para criar e os que ainda desejam tê-los.

A doença é progressiva e não tem cura. Os medicamentos surgidos nos últimos 15 anos têm conseguido diminuir a velocidade de seu avanço na maioria dos pacientes, com melhores resultados quando o diagnóstico é precoce, o que ainda é um desafio para os médicos. Novos remédios, que devem ser lançados em breve, prometem melhor eficácia – mesmo assim dificilmente dispensarão a reabilitação física e o acompanhamento psicológico, parte indispensável do tratamento.

Quase tudo nesta doença é imprevisível, a começar pelos sintomas, que se manifestam em surtos de intensidade e duração variáveis e podem incluir visão embaçada, fadiga, espasmos musculares, falta de equilíbrio, dormência em qualquer parte do corpo, urgência ou incontinência urinária, problemas de memória, dificuldades na fala, entre outros. Tais sintomas, porém, raramente aparecem juntos no mesmo paciente – a velha máxima “cada caso é um caso” nunca foi tão verdadeira como no da esclerose múltipla. Entre dois surtos, um período de remissão de duração também variável pode dar a impressão, nos que ainda não foram diagnosticados, de que o problema não é grave. “Como é passageiro, a maioria das pessoas não dá importância e não procura o médico. Alguns acham que é culpa do stress”, diz Maria Cristina Giácomo, coordenadora do departamento científico da Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem). Mais cedo ou mais tarde, no entanto, os sintomas voltam e com o passar do tempo sua recorrência vai deixando marcas irreversíveis.

Cura pela melodia

Cura pela melodia
por Ricardo Giagni

Em todas as culturas, sociedades e épocas, considera-se que a música detém um poder específico sobre a alma, a consciência e os sentimentos dos indivíduos e da coletividade, qualquer que seja a forma que a atividade musical assume na realidade histórica e social concreta. Todos já experimentamos esse poder caprichoso: a audição casual de um trecho de canção, as notas de uma sonata clássica ou um solo jazzístico de piano atingem, com precisão misteriosa, zonas de nossa memória e de nossa sensibilidade até então na sombra. Somos assim inesperadamente – e de boa vontade – dominados por uma emoção pura inominável – e familiar.

Somos tentados a pensar a música como uma potência que escapa às hierarquias e generalizações, um domínio indiferenciado e caótico: afinal, essa experiência parece ser pessoal, embora compartilhada por milhões de pessoas, e, além disso, qualquer que seja o tipo de música, o resultado não é alterado (nesse campo, Bach vale tanto quanto Laura Pausini). Não devemos, porém, subestimar esse poder universal, tantas vezes identificado como uma das marcas fundamentais da natureza humana, sobretudo quando ele tem a possibilidade de alterar os estados de consciência das pessoas. É o que ocorre, por exemplo, na terapia de dança e música do tarantulismo, que realiza rituais antiguíssimos, e em experiências de possessão do êxtase ativadas por sons, presentes em todo o mundo, da Terra do Fogo à Sibéria, do Brasil ao Vietnã.

O som governa a mente do homem e os deuses não são estranhos a esse atributo, se é verdade que, nos diversos mitos de criação, sempre que a gênese do mundo é descrita com suficiente precisão, um elemento acústico intervém no momento decisivo da ação: no instante em que a entidade divina manifesta sua vontade de criar o céu, a terra, os homens e todas as coisas, ela emite um som, muitas vezes cantando ou tocando um instrumento.

Quanto mais simples melhor

Quanto mais simples melhor
Pesquisadores investigam a complexa relação entre esforço, motivação e cognição; aparentemente, nosso cérebro confunde facilidade em ler instruções sobre tarefas com a simplicidade de sua execução
por Wray Herbert

O cartunista americano Rube Goldberg (1883-1970) ficou conhecido por ser o criador das “máquinas de Goldberg”. Cada uma de suas invenções cômicas mostrava um conjunto de instruções complexas para realizar o que deveria ser uma tarefa cotidiana simples. Seu “guardanapo automático”, por exemplo, apresentava 13 passos sequenciais, envolvendo um papagaio, um acendedor de charutos, um foguete e uma foice – junto com diversos elásticos, tiras e pêndulos. As charges se tornavam engraçadas porque, com bom humor, cutucavam uma ironia fundamental da psicologia humana: não raro, as pessoas tendem a tornar tarefas simples mais complicadas do que o necessário.

Na realidade, o oposto, em geral, também é verdadeiro: as confusas regras de “como fazer” de Goldman podem nos fazer rir, mas também nos deixam exaustos. Se for necessário fazer tudo aquilo para usar um guardanapo, por que tentar? Alguns psicólogos estão muito interessados em descobrir mais sobre a complexa relação entre esforço, motivação e cognição – a facilidade com a qual pensamos sobre tarefas. É possível que a simplicidade (ou complexidade) com a qual uma atividade é descrita e processada, de fato, afete nossa atitude com relação a essa atividade e, por fim, nossa vontade de realizá-la.

Dois psicólogos da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, nos Estados Unidos, decidiram investigar essa ideia em laboratório. O desafio de Hyunjin Song e Norbert Schwarz era conseguir motivar um grupo de universitários de 20 anos a praticar atividade física regularmente. Eles deram instruções escritas aos voluntários para que estabelecessem uma rotina com exercícios regulares, mas utilizaram um método para tornar as orientações de “como fazer” cognitivamente agradáveis ou desafiadoras: alguns alunos receberam as instruções escritas com a fonte Arial, plana e desenvolvida para facilitar a leitura; outros receberam em fonte Brush, que, basicamente, parece letra manuscrita com um pincel japonês, o que dificulta a leitura. Depois que os alunos haviam lido as instruções, os pesquisadores perguntaram a eles, por exemplo, quanto tempo acreditavam que levaria a conclusão das atividades, se fluiria naturalmente ou pareceria não ter fim, se seria chata ou interessante. Eles também questionaram sobre a probabilidade de tornar os exercícios parte de sua rotina.

As descobertas foram surpreendentes: os que haviam lido as instruções em uma fonte simples estavam mais dispostos a realizar a tarefa – acreditavam que duraria pouco tempo e que fluiria de maneira fácil. E mais importante, eles tinham mais vontade de tornar o exercício parte da rotina. Aparentemente, o cérebro dos estudantes confundiu a facilidade em ler sobre os exercícios com facilidade para realizar flexões e abdominais, e essa confusão motivou-os a pensar em uma mudança de vida. Os que brigaram com as pinceladas japonesas não tinham a menor intenção de ir à academia; a leitura, por si só, já os deixou cansados. Song e Schwarz decidiram verificar novamente esses resultados, com outra pesquisa, envolvendo outra atividade: a culinária.

Novamente usaram uma fonte mais clara e outra rebuscada. Mas, nesse caso, as instruções ensinavam a fazer um rolinho de sushi. Depois que os voluntários leram a receita, deveriam estimar o tempo para execução do prato e se estavam ou não inclinados a fazê-lo. Os resultados foram basicamente os mesmos, conforme publicado no periódico Jornal de ciência psicológica: aqueles que leram as instruções com uma aparência mentalmente desafiadora acharam que a tarefa seria demorada e necessitaria de alto nível de habilidades culinárias; os participantes observaram a estranheza da escrita como sendo da própria tarefa e, como resultado, tentaram evitá-la. Já aqueles que receberam informações de forma mais direta ficaram bastante dispostos a ir para a cozinha. Conclusão: o cérebro emprega todos os tipos de truques e atalhos para que o indivíduo atravesse o dia com o mínimo de esforço físico e mental, mas é bom prestar atenção nesses julgamentos automáticos. Se não forem verificados, a tendência de confundir pensamentos e ações pode levar a opções duvidosas, que parecem ser mais fáceis e desejáveis do que de fato são, ou pode afastar de escolhas saudáveis e da exploração criativa.

A relação entre paixão e criatividade

A relação entre paixão e criatividade
Essas duas forças intensas, capazes de romper as barreiras da razão, muitas vezes parecem caminhar juntas; o resultado dessa associação são obras de arte, música e literatura de inestimável valor não só para artistas e suas musas, mas para toda a humanidade
por Erane Paladino

Quantas poesias, contos e romances têm falado de amor e de dor ao longo dos tempos? Encontros ardentes e avassaladores e paixões impossíveis, permeiam o imaginário de homens e mulheres e afetam pessoas de diferentes classes sociais, em variados contextos históricos e culturais. Parece haver um paradoxo entre forças intensas capazes de romper as barreiras da razão para jogar no infinito um oceano desordenado de sentimentos que, ao mesmo tempo, inundam a alma de amor... e medo.

Quem nunca se viu, pelo menos uma vez, inesperadamente apaixonado? A condição pode parecer única àquele que a vive, mas as referências a esse estado aparecem de inúmeras formas, representadas por diferentes povos. Numa dimensão sociológica, podem-se discutir os limites entre movimentos históricos e culturais e/ou crenças como elementos propulsores de processos psíquicos inerentes a essa condição humana de “apaixonamento”.

Sob o encanto da Lua

Sob o encanto da Lua
Em diferentes culturas, variações do comportamento humano foram atribuídas às fases lunares; para pesquisadores, a teoria pode ser considerada um “fóssil cultural”
por Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz


Ao longo dos séculos, muitos já disseram: “Deve ser noite de lua cheia”, numa tentativa de explicar acontecimentos estranhos. E até hoje, o nome da deusa romana da Lua continua sendo familiar: Luna, prefixo da palavra lunático (um dos sinônimos para louco). O filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) e o historiador romano Plínio (23 – 79 d.C.), o Velho, sugeriram que o cérebro era o órgão mais úmido do corpo e, desse modo, mais suscetível às influências perniciosas da Lua, responsável também pelas marés. A crença no efeito lunar persistiu na Europa durante a Idade Média, se acreditava que alguns seres humanos se transformavam em lobisomens ou vampiros durante madrugadas de lua cheia.

Ainda hoje, muitas pessoas acreditam que os poderes místicos do satélite da Terra induzem comportamentos erráticos, surtos psicóticos e suicídios; crêem que, por deflagrar a agressividade, fazem aumentar o número de homicídios, de acidentes de trânsito, de violência por parte de torcedores e jogadores profissionais durante as partidas e até de mordidas de cachorro. Um levantamento realizado nos Estados Unidos revelou que 45% dos estudantes universitários acreditavam que as pessoas afetadas pela Lua são propensas a comportamentos estranhos. Outras pesquisas sugerem que profissionais que trabalham com saúde mental podem estar mais inclinados do que as pessoas em geral a aceitar essa ideia. Em 2007, diversos departamentos de polícia do Reino Unido aumentaram o número de policiais em noites de lua cheia, num esforço para lidar com índices de criminalidade presumidamente mais altos.

Seguindo Aristóteles e Plínio, o Velho, alguns autores contemporâneos, como o psiquiatra Arnold Lieber, de Miami, presumiram que os efeitos comportamentais da Lua cheia ocorreriam por influência lunar na água. O corpo humano, ao todo, é composto de cerca de 80% de líquido e, deste modo, a Lua pode agir, de maneira misteriosa, alterando o alinhamento das moléculas do sistema nervoso central.

O texto como placebo

O texto como placebo
Autoajuda encerra uma lição que vale para a ciência: O paciente precisa do amparo das palavras
por Moacyr Scliar


A palavra placebo (do latim agradarei) refere-se a uma substância ou um procedimento que teoricamente não faria efeito sobre o organismo, mas que acaba tendo resultados terapêuticos, pela crença que uma pessoa deposita nela. Pergunta: é o texto um placebo? No caso da ficção, pode-se dizer que sim. É algo que resulta da imaginação de um escritor, de um cineasta, de um dramaturgo; mas, quando agrada o espectador ou o leitor (um objetivo implícito na própria criação ficcional), exerce um efeito que poderíamos chamar de terapêutico. A ficção ajuda a viver. E isso inclui uma melhora da saúde – pelo menos do ponto de vista psicológico. Para muitas pessoas a leitura é um amparo, um consolo, uma terapia. Daí nasceu inclusive um gênero de livros que se tornou popular: as obras de autoajuda. Diferentemente da ficção, elas aconselham o leitor acerca de problemas específicos: luto, controle do stress, divórcio, depressão, ansiedade, relaxamento, autoestima, e até a felicidade. Esse tipo de leitura faz um enorme sucesso; não há livraria que não tenha uma seção destinada especialmente à autoajuda.

Um dos autores mais conhecidos dessa área é o médico hindu Deepak Chopra. Formado em medicina pela Universidade de Nova Déli, na Índia, emigrou para os Estados Unidos, especializou-se em endocrinologia e trabalhou no New England Memorial Hospital, em Massachusetts. Uma carreira médica habitual, portanto, que mudou em 1985, quando Chopra fundou a Associação Americana de Medicina Védica. Em 1993, mudou-se para San Diego, na Califórnia, onde fundou o The Chopra Center For Well Being. Ainda no mesmo estado, agora em La Jolla, criou em 1996 o Chopra Center. Fazendo um parênteses: a Califórnia é um conhecido reduto da vida e da medicina alternativas, como aromaterapia, osteopatia, toque terapêutico, terapia floral e outras.

A ciência da bondade

A ciência da bondade


Por que as pessoas fazem o bem? A bondade está programada no nosso cérebro ou se desenvolve com a experiência? O psicólogo Dacher Keltner, diretor do Laboratório de Interações Sociais da Universidade da Califórnia, em Berkeley, investiga essas questões por vários ângulos e apresenta resultados surpreendentes. Em seu novo livro Born to be good: the science of a meaningful life (W.W.Norton, 2009, ainda sem tradução em português), Keltner compila descobertas científicas que revelam o poder da emoção humana inata e criam conexões entre as pessoas, segundo ele um caminho eficaz para uma boa vida. Em entrevista, o pesquisador discute altruísmo, neurobiologia e aplicações práticas de suas descobertas.

Mente&Cérebro – Para o senhor, que quer dizer a expressão “nascido para ser bom”?
Dacher Keltner – Significa que a evolução criou uma espécie, os humanos, com inclinação para bondade, brincadeira, generosidade, reverência e autossacrifício – vitais para a evolução, vale dizer, sobrevivência, replicação genética e habilidade de convívio em grupo –, que se manifestam por meio de emoções como compaixão, gratidão, medo, vergonha e felicidade. Estudos recentes revelam que as capacidades humanas de cuidar, brincar e respeitar foram desenvolvidas pelo cérebro e pela prática social.

M&C – Uma das estruturas corporais que parece ter sido adaptada para gerar altruísmo é o nervo vago, como sua equipe em Berkeley descobriu. Fale um pouco sobre essa pesquisa e suas implicações.
Keltner – O nervo vago é um feixe neural que se origina no topo da espinha dorsal. Ele estimula diferentes órgãos (como coração, pulmão, fígado e aparelho digestivo). Quando ativo, produz uma sensação de expansão confortável no tórax, como quando estamos emocionados com a bondade de alguém ou ouvimos uma bela música. O neurocientista Stephen W. Porges, da Universidade de Illinois em Chicago, há tempos argumenta que essa região cerebral é o “nervo da compaixão”. Acredita-se que esse nervo estimule alguns músculos na cavidade vocal, permitindo a comunicação. Estudos recentes apontam que ele pode estar conectado à rede de receptores para a oxitocina, neurotransmissor relativo à confiança e aos laços maternais. Nossas pesquisas e as de outros cientistas indicam que a ativação dessa região está associada aos sentimentos de cuidado e intuição que humanos de diferentes grupos sociais têm. Pessoas com alta ativação dessa região cerebral são mais propensas a desenvolver compaixão, gratidão, amor e felicidade. A psicóloga Nancy Eisenberg, da Universidade Estadual do Arizona, descobriu que crianças com atividade alta do nervo vago têm mais chances de cooperar e doar. Segundo pesquisas recentes, ele estimula tal comportamento.

M&C – Frequentemente, quando lemos trabalhos acadêmicos sobre emoções, moralidade e áreas relacionadas, perguntamos: existe alguma coisa que possamos fazer para usar isso na prática? Ao olhar para o futuro, que repercussão o senhor gostaria que seu trabalho tivesse?
Keltner – Em resumo, após tratar da nova ciência das emoções no meu livro, percebi o quanto isso é útil. Segundo alguns estudos, cooperação e senso moral são traços evolucionários, e essas habilidades são encontradas nas emoções sobre as quais escrevo. Uma ciência da felicidade está revelando que esses sentimentos podem ser cultivados, o que traz o lado bom dos outros – e o nosso – à tona.

M&C – O que esse tipo de ciência o faz pensar?
Keltner - Ela me traz esperanças para o futuro. Que nossa cultura se torne menos materialista e privilegie satisfações sociais como diversão, toque, felicidade, que do ponto de vista evolucionário são as fontes mais antigas de prazer. Vejo essa nova ciência em quase todas as áreas da vida. Os médicos, por exemplo, hoje recebem treinamento para desenvolver empatia para com seus pacientes, ouvi-los, tocá-los com carinho; são atitudes que ajudam no tratamento. Os professores interagem com mais proximidade com seus alunos. Ensina-se meditação em prisões e em centros de detenção de menores. Executivos aprendem que inteligência emocional e bom relacionamento podem fazer uma empresa prosperar mais do que se ela for focada apenas em lucros.

Dacher Keltner

Cognição e esquizofrenia

Cognição e esquizofrenia
Já no primeiro episódio da patologia os prejuízos são amplos e sérios, similares aos observados em pacientes doentes há algum tempo; a conclusão reforça a necessidade de diagnóstico precoce para diminuir sequelas

A deterioração da capacidade intelectual de pessoas com esquizofrenia não se dá, necessariamente, ao longo da vida – como durante muito tempo os especialistas acreditaram. Problemas cognitivos graves e generalizados parecem existir já na fase inicial da doença, o que torna difícil para as pessoas com esse transtorno realizar tarefas cotidianas, como trabalhar e estudar. A conclusão é de um novo estudo publicado pela Associação Americana de Psicologia (AAP). Entender os problemas cognitivos centrais e precoces pode ajudar os clínicos a diagnosticar com mais precisão a esquizofrenia incipiente, diferenciando-a de outros transtornos neuropsiquiátricos que também levam a distúrbios cognitivos, como o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Combinar os sinais de alerta cognitivos da esquizofrenia com o histórico familiar e os sinais de piora gradativa das funções diárias também pode ajudar especialistas a obter um diagnóstico precoce, o que em muitos casos previne problemas.

Essa é uma das principais conclusões de uma investigação conduzida por pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard e da Universidade Médica do Alto do Estado Suny, ambas em Nova York. Os cientistas examinaram 47 estudos publicados, duplamente revisados, sobre primeiros episódios de esquizofrenia; participaram 2.204 pacientes e 2.775 pessoas no grupo de controle, de ambos os sexos, com idades variadas, e os resultados foram publicados pela Associação Americana de Psicologia no periódico científico Neuropsychology.

“O primeiro episódio da psicopatologia, que ocorre em geral por volta dos 20 anos, traz sentimentos de grande terror, trauma e choque, junto com uma desorganização cognitiva proeminente, que aumenta a incidência de pensamentos perturbadores e/ou paranoicos com alterações perceptivas”, escrevem os coautores Raquelle Mesholam-Gately, Ph.D., e Anthony Giuliano, Ph.D., coordenadores do estudo. Os autores perceberam que pessoas com esquizofrenia apresentavam um período de risco antes do início das crises, com duração de alguns meses a dois anos, no qual tinham problemas crescentes na vida cotidiana, que culminavam na patologia completa. A preocupação dos especialistas agora é detectar a doença antes mesmo que surjam alterações profundas de comportamento ou alucinações auditivas e visuais. Segundo Mesholam-Gele, a intervenção precoce para os problemas cognitivos pode diminuir a intensidade e duração, permitindo prognóstico mais favorável, menores taxas de recaída e melhor preservação de habilidades sociais e cognitivas. O período de alto risco, ou prodômico, é o novo foco de prevenção, diagnóstico e tratamento. Os testes cognitivos também podem ajudar crianças mais velhas que apresentam histórico familiar de esquizofrenia e sintomas clínicos emergentes. Quando médicos, psicólogos e educadores observam algum prejuízo intelectual, costumam pensar em algo como TDAH, mas os pesquisadores dizem que as novas descobertas podem aumentar a importância do histórico familiar (considerando que a esquizofrenia tem componente genético), favorecendo assim a caracterização dos sintomas clínicos de comportamento, especialmente próximo à idade de maior risco.

Os pesquisadores detiveram-se em descobertas comuns feitas em dez áreas de neurocognição, incluindo habilidades gerais, atenção, memória e capacidades motoras, verbais e capacidades de percepção espacial. Eles perceberam, por exemplo, que já no primeiro episódio da patologia os prejuízos cognitivos eram amplos e sérios, similares ou iguais em severidade aos problemas observados nos pacientes que já estavam doentes havia algum tempo. Pessoas que apresentavam o primeiro episódio de esquizofrenia tinham desempenho significativamente pior em todas as tarefas cognitivas, em comparação com os integrantes do grupo de controle, compatíveis em sexo e idade. Os pacientes tinham mais problemas com a velocidade de processamento de informações, aprendizado verbal e memorização.

Embora muitas doenças neurológicas e psiquiátricas, como o transtorno bipolar, afetem a velocidade de absorção e fixação, a esquizofrenia parece causar um prejuízo mais profundo. A medida do quociente de inteligência (QI) e de outras habilidades cognitivas caiu mais entre o chamado período de risco, que ocorre pouco antes do aparecimento dos sintomas e das primeiras fases agudas. Depois disso, as habilidades de raciocínio se tornaram estáveis. Esse padrão intelectual, combinado com outros sinais, como os sintomas clínicos e o histórico familiar, pode sugerir diagnóstico de esquizofrenia.

Hoje, não existem tratamentos efetivos para os problemas cognitivos na esquizofrenia. Recentemente, nos Estados Unidos, o Instituto Nacional de Saúde Mental financiou duas iniciativas para desenvolver padrões de avaliação para cognição em pacientes com a patologia com o objetivo de testar medicamentos que podem ser indicados nesses casos.

Raquelle Mesholam-Gately, Ph.D., e Anthony Giuliano, Ph.D., coordenadores do estudo.
Botox altera expressões faciais e influencia sentimentos
Pesquisadores descobrem que pessoas que tiveram a capacidade de franzir o rosto comprometida por injeções de toxina botulímica se consideram, em geral, mais felizes do que eram antes

Franzimos o rosto quando estamos tristes. Sorrimos porque estamos felizes. Mas pode a relação causa-efeito ocorrer na direção inversa? Ou seja: adotar uma expressão de alegria influenciaria nossos sentimentos a ponto de nos deixar mais contentes? Estudos recentes em pessoas que receberam injeções de botox sugerem que nossas emoções são reforçadas – e até mesmo dirigidas – por expressões correspondentes. O naturalista Charles Darwin (1809-1882) foi o primeiro a levantar, em 1872, a ideia de que respostas emocionais influenciam nossos sentimentos. “A expressão livre de sinais externos de uma emoção é capaz de intensificá-la”, escreveu. O psicólogo francês William James (1898-1944) chegou a afirmar que, se uma pessoa não expressou uma emoção, ela não a sentiu de fato. Embora atualmente poucos cientistas concordem com essa afirmação, existem evidências de que os sentimentos envolvem mais que o cérebro. O rosto, em particular, parece ter um papel fundamental nesse processo.

Psicólogos da Universidade de Cardiff, no País de Gales, descobriram que pessoas que tiveram a capacidade de franzir o rosto comprometida por injeções cosméticas de botox se consideram, em geral, mais felizes do eram antes. Os pesquisadores aplicaram um teste de ansiedade e depressão em 25 voluntárias – metade das que haviam recebido injeções de botox, disseram se sentir-se, de forma geral, mais felizes e menos ansiosas. E mais importante: a maioria disse que se sentia mais atraente (embora esse tenha sido o objetivo quando se submeteram ao tratamento estético), o que sugere que os efeitos emocionais não estavam ligados ao reforço psicológico que poderia surgir com um procedimento estético. “Parece que a forma de sentir não está apenas restrita ao cérebro – existem partes do corpo que podem ajudar e reforçar as emoções”, diz Michael Lewis, um dos autores do estudo. “É como um círculo vicioso.”

Em um experimento realizado na Universidade Técnica de Monique, na Alemanha, cientistas avaliaram pessoas que receberam botox com ressonância magnética funcional enquanto pediam a elas que fizessem cara de irritação. Eles descobriram que os indivíduos com botox tinham muito menos atividade nos circuitos cerebrais envolvidos no processamento e respostas emocionais – a amígdala, o hipotálamo e partes do tronco cerebral – quando comparados com voluntários do grupo de controle que não haviam passado por nenhuma intervenção. O conceito também funciona de maneira oposta – aumentando as emoções em vez de suprimi-las. De acordo com uma pesquisa publicada no Journal of Pain, pessoas que franzem o rosto durante um procedimento doloroso relatam ter sentido mais dor do que as outras.

Os pesquisadores aplicaram calor ao antebraço de 29 participantes, que deveriam fazer cara triste, neutra ou relaxada durante o procedimento. Os que exibiram expressões negativas relataram ter passado por mais dor do que os outros dois grupos. Lewis, que não estava envolvido nesse teste diz que planeja estudar o efeito das injeções de botox na percepção da dor. “É possível que as pessoas sintam menos dor, se não podem expressá-la.” Mas todos nós ouvimos dizer que é ruim reprimir os sentimentos – então, o que acontece se alguém intencionalmente suprime as emoções negativas de maneira constante? Um trabalho realizado pela psicóloga Judith Grob, da Universidade de Groningen, na Holanda, sugere que essa negatividade suprimida pode vazar para outra esfera da vida. Em uma série de estudos realizados para sua tese de pós-doutorado, já submetidos para publicação, ela pediu a participantes que olhassem para imagens repugnantes; um grupo deveria esconder as emoções, outro, segurar uma caneta na boca para evitar franzir o rosto; um terceiro grupo podia reagir como quisesse.

Como esperado, os indivíduos nos dois grupos que não expressaram as emoções disseram, posteriormente, ter sentido menos nojo do que o grupo controle. Em seguida, Grob deu a todos uma série de testes cognitivos, incluindo exercícios para preencher espaços em branco. Ela descobriu que os participantes que reprimiram as emoções tiveram desempenho pior em testes de memória e de completar palavras – eles completaram, por exemplo, “gr_ss” com “gross” (expressão de nojo em inglês), em vez de “grass” (grama, em inglês). “As pessoas que tendem a fazer isso regularmente podem começar a ver o mundo de maneira mais negativa”, afirma a psicóloga. “Quando a face não ajuda a expressar uma emoção, esse sentimento busca outros canais para se expressar.”

Ninguém sabe ainda por que nossas expressões faciais influenciam nossas emoções, como parece acontecer. Em nossa mente, associações entre sentimentos e reações podem ser tão fortes que as expressões acabam reforçando nossas emoções – e pode não haver uma razão evolutiva para essa conexão. Ainda assim, nosso rosto parece comunicar nossos estados mentais não apenas para os outros, mas também para nós mesmos. “Eu sorrio, logo devo estar feliz”, diz Grob.
Michael Lewis

Perigos da poluição para o cérebro

Perigos da poluição para o cérebro
Agentes tóxicos comuns no ar – como carbono preto, material particulado e ozônio –podem provocar sérios efeitos na cognição de crianças e adultos

O exercício nas ruas com trânsito pesado pode expor o cérebro a níveis nocivos de poluição
Em uma época em que tanto se discute o derretimento das calotas polares e a destruição das florestas e da camada de ozônio, é quase redundante dizer quanto as substâncias emitidas por automóveis e usinas a carvão são prejudiciais ao sistema respiratório. O que pode surpreender é o grau de danos que esses poluentes podem provocar no cérebro – sendo a exposição a eles, em certos casos, tão prejudicial quanto ao chumbo. Estudos recentes mostram que agentes tóxicos comuns no ar como o carbono preto, o material particulado e o ozônio podem ter efeito negativo sobre capacidades como aquisição de vocabulário, tempo de reação e até mesmo sobre a inteligência, de forma geral.

O mais recente desses estudos, realizado em Nova York, no qual grávidas usaram monitores pessoais de ar durante toda a gestação, descobriu que crianças de 5 anos expostas a níveis altos de poluentes urbanos – conhecidos como hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) – quando ainda estavam no útero apresentavam quociente intelectual (QI) 4 pontos inferior ao das que foram expostas a quantidades menores das substâncias. De modo alarmante, “a queda foi semelhante à observada em exposições a baixos níveis de chumbo”, comenta a epidemiologista Frederica Perera, diretora do Columbia Center for Children Environmental Health e autora principal do estudo. A alteração dos índices de QI foi suficiente para causar queda no desempenho escolar e nas notas em testes simples.

“E esses níveis de poluição que medimos no estudo nem foram expressivamente altos, se comparados àqueles de outras áreas urbanas”, observou a pesquisadora. A maior parte dos poluentes HPAs vem de emissões de motores de veículos automotivos, especialmente de carros e caminhões movidos a gasolina e a diesel, além da queima de carvão. A fumaça do cigarro é outra fonte importante de poluentes; por isso pesquisadores não consideraram no estudo crianças que convivem com fumantes.
Frederica Perera

Em busca da causa das doenças mentais

Em busca da causa das doenças mentais
Em entrevista para a Mente&Cérebro, a pesquisadora Sabine Bahn, diretora do Centro de Pesquisas Neuropsiquiátricas em Cambridge, conta detalhes sobre sua linha de estudo que investiga as causas de doenças graves como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar
Steve Ayan

Mesmo depois de muitos anos de pesquisas para descobrir a real causa de alguns distúrbios mentais, os cientistas ainda não têm certeza da origem de graves doenças como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar. Em entrevista para a Mente&Cérebro, a pesquisadora Sabine Bahn, diretora do Centro de Pesquisas Neuropsiquiátricas em Cambridge, conta detalhes sobre sua linha de estudo que investiga as causas da patologia. Suas pesquisas se baseiam em análises de proteínas, entre outros métodos biomoleculares. Por meio deles ela espera descobrir alterações no cérebro de pessoas com doenças mentais graves.

À primeira vista, o ambiente de trabalho da neuropsiquiatra parece ser exatamente como se imagina um laboratório de biólogos moleculares: uma confusão de cabos e tubos espalhados por todos os lados; aparelhos com nomes impronunciáveis ligados e computadores de última geração zunindo constantemente. Somente em um segundo momento é possível enxergar um ponto de azul-celeste e outro cor-de-rosa brilhando entre os armários. “Quando nos mudamos para cá há cinco anos, mandamos colorir as paredes”, revela Sabine Bahn, diretora do Centro de Pesquisas Neuropsiquiátricas em Cambridge. Sabine nasceu em Freiburg, na Alemanha, mas durante o doutorado passou a trabalhar na “universidade da elite britânica”, como ela mesma diz. Hoje, aos 42 anos a cientista está entre os pesquisadores que trabalham para descobrir novas doenças psiquiátricas. Por meio da análise de proteínas e de outros métodos biomoleculares, Sabine procura biomarcas no cérebro que forneçam informações sobre o surgimento e o desenvolvimento dos transtornos psíquicos.

A dificuldade: nenhuma outra parte do corpo é tão complicada quanto o cérebro. A pesquisa de Sabine, portanto, se assemelha à busca de uma agulha no palheiro – sendo o palheiro, neste caso, composto por milhares de proteínas e metabólitos, mensageiros e cascatas de sinais que se influenciam mutuamente. Veja na entrevista exclusiva à Mente&Cérebro por que ela acredita que suas descobertas podem ser o futuro da neuropsiquiatria.

Que som é esse?

Que som é esse?
Crianças com dislexia têm dificuldade em diferenciar a língua falada de outros ruídos

Dentro da sala de aula os sons se misturam: conversas em voz alta, barulho de papel e arrastar de cadeiras, e, ainda assim, a maioria das crianças consegue acompanhar a voz do professor. Porém, para vários alunos com dificuldades de leitura isso não acontece. O que foi dito se perde em meio ao barulho, e eles não conseguem distinguir todos os outros sons a sua volta.

Segundo neurocientistas da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, a raiz do problema está no tronco encefálico: em crianças disléxicas essa área aparentemente não reage bem. Os pesquisadores estudaram 30 crianças com idade entre 8 e 13 anos, das quais metade sofria de distúrbios de leitura.

Os participantes assistiram a um filme escolhido por eles ao mesmo tempo que ouviam a sílaba “da” no fone de ouvido. Com a ajuda de eletrodos os pesquisadores registraram a atividade cerebral das crianças. Em um segundo teste, os voluntários repetiam frases inteiras que lhes eram ditas, e o volume do barulho que estava ao fundo, usado para distraí-los, aumentava gradativamente.

Os resultados foram os esperados: apesar de todas as crianças terem se concentrado no filme, o cérebro dos voluntários sem distúrbios percebeu a sílaba pronunciada com grande exatidão, fato percebido pela linearidade do padrão no eletroencefalograma (EEG). Em crianças com dislexia, esse sinal não ocorreu e o desempenho no segundo teste foi pior do que nas demais.

O tronco encefálico funciona como primeiro ponto de conversão de sinais acústicos depois que o ouvido interno transformou as ondas sonoras em impulsos elétricos. Crianças disléxicas aparentemente têm nesse estágio inicial do processamento sensorial problemas relevantes para diferenciar a fala de outros ruídos ambientes, explica o neurocientista Bharath Chandrasekaran, coordenador do estudo.

Essas descobertas podem explicar o resultado de outros estudos que demonstraram que a dislexia muitas vezes surge associada a uma percepção acústica ruim da fala. Os pesquisadores sugerem que os professores podem ajudar crianças com esse distúrbio: alunos disléxicos deveriam sentar-se na frente do professor para acompanhar melhor a explicação e, em casos mais graves, usar aparelho auditivo adaptado.

Bharath Chandrasekaran,
A arte de caminhar
Desde a antiguidade movimentar o corpo ajuda as pessoas a pensar, tomar decisões e expressar indignação; na literatura artistas e apaixonados são andarilhos

A consciência da necessidade de praticar exercícios físicos é recente. “No começo, era o pé”, diz o antropólogo Marvin Harris. O pé, não a mão. A mão nos fez humanos – mas antes de sermos humanos somos parte do reino animal, e o nosso corpo precisa atender às necessidades que os animais enfrentam, entre elas a do deslocamento. O ser humano evoluiu, tornou-se bípede, mas continuou caminhando. E passou a usar a caminhada para outros fins que não o de chegar a um lugar específico: o de buscar determinada coisa. Praticar exercícios físicos é algo relativamente recente, mesmo porque, no passado, o sedentarismo era a exceção antes que a regra; caçadores, agricultores, trabalhadores em geral jamais pensariam nisso. Mas muito cedo o ato de caminhar adquiriu um significado psicológico, simbólico. O protesto político muitas vezes se fez, e ainda se faz, sob a forma de marchas, de caminhadas; foi o caso da Marcha dos 100 Mil (1968), um dos primeiros protestos organizados contra a ditadura no Brasil. Os filósofos gregos muitas vezes ensinavam a seus discípulos caminhando. “Levanta-te, toma teu leito e anda”, diz o Evangelho (João, 5:8), ou seja, vá em busca de seu destino, de seus objetivos. E Santo Agostinho cunhou uma expressão famosa: Solvitur ambulando, caminhar resolve (os problemas, as dúvidas). Por quê?

No livro Wanderlust: a history of walking (A ânsia de vagar: uma história da caminhada), de 2000, Rebecca Solnit diz que andar permite “conhecer o mundo através do corpo”, ou, nas palavras do poeta modernista Wallace Stevens (1879-1955): “Eu sou o mundo no qual caminho”. Trata-se, pois, de uma experiência cognitiva, muito necessária nesses tempos em que as pessoas se deslocam sobretudo utilizando carros, trens, aviões. Mas caminhar também envolve um processo de autoconhecimento, quando não de inspiração. “Os grandes pensamentos resultam da caminhada”, diz o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), uma ideia que Raymond Inmon expressa de forma mais poética: “Os anjos sussurram para aqueles que caminham”. O escritor francês Anatole France (1844-1924) faz uma comparação interessante: “ É bom colecionar coisas, diz ele, mas é melhor caminhar. Porque caminhar também é uma forma de colecionar coisas: as coisas que a gente vê, as coisas que a gente pensa”. Esse processo é facilitado pela renovação da paisagem, seja ela rural ou urbana, e pelo próprio automatismo do ato de caminhar.
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Com quanta tristeza se faz uma depressão?

Com quanta tristeza se faz uma depressão?
A tristeza perdida, livro dos psiquiatras Allan Horwitz e Jerome Wakefield, critica diagnósticos que ignoram a relação entre os sintomas e o contexto do paciente
Patricia Porchat

Há 2.500 anos o ser humano se preocupa em distinguir a tristeza normal da melancolia, nome antigo para o que hoje denominamos “transtorno depressivo”. Desde Hipócrates (460-377 a.C.), na antiga Grécia, observa-se que as reações que temos a perdas de entes queridos, amores e outras tantas coisas importantes podem gerar profundo pesar. No entanto, é possível detectar que, para alguns, a tristeza se prolonga demasiadamente, e sua causa não é identificada pelo próprio sofredor. Ausência de motivo para sofrer: este foi um importante critério diagnóstico para a melancolia em diferentes períodos da história da medicina.

De modo geral, para qualificar a tristeza ou a depressão utilizamos a observação de alguns fenômenos: desânimo, mágoa, abatimento, sensação de vazio, desespero, desesperança, aversão a comida, irritabilidade, inquietude, sentimento de inutilidade, ideação suicida, tentativa de suicídio, medo da morte, negativismo, falta de prazer ou de interesse nas atividades cotidianas, reclusão social, fadiga ou perda de energia, agitação ou retardamento (desaceleração) psicomotor.

O fato de a tristeza ser profunda e intensa, reunindo várias dessas manifestações por um tempo um pouco maior do que o esperado, em geral, proporcionou à psiquiatria contemporânea uma confusão entre tristeza “natural” e transtorno mental depressivo. Os autores de A tristeza perdida, Allan Horwitz e Jerome Wakefield, ambos psiquiatras, criticam o momento atual dessa especialidade médica por se apoiar em diagnósticos que ignoram a relação entre sintomas e o contexto do paciente. Como resultado, com exceção do luto, qualquer reação a uma grande perda tem altíssima chance de ser diagnosticada como depressão, pois o critério se baseia no sintoma e não na causa do sofrimento.

Tomar sol ajuda proteger os neurônios

Tomar sol ajuda proteger os neurônios
Pouca vitamina D no organismo pode comprometer a função cognitiva


Dermatologistas costumam alertar: para expor a pele aos raios solares é preciso aplicar protetor, o que evita câncer e envelhecimento precoce. Mas fugir do sol também traz consequências graves para o cérebro. Pesquisadores descobriram que a ausência de vitamina D no organismo pode comprometer funções cognitivas. Embora seja mais conhecida por promover saúde dos ossos e regular os níveis de cálcio, a vitamina desativa enzimas cerebrais que participam da síntese de neurotransmissores e do crescimento neuronal. Com essas descobertas, pesquisadores esperam que no futuro a vitamina ajude no tratamento de pacientes com Alzheimer.


“Sabemos que há receptores de vitamina D espalhados por todo o sistema nervoso central e hipocampo. Além disso, ela ativa e desativa as enzimas no cérebro e no fluido cerebrospinal envolvidas na síntese de neurotransmissores e no crescimento dos nervos”, explicou o pesquisador Robert J. Przybelski, da Escola de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Wisconsin. Os estudos em animais e em laboratório sugerem que a substância pode proteger os neurônios e reduzir a inflamação.


Dois novos experimentos revelam mais novidades sobre o assunto. O primeiro, conduzido pelo neurocientista David Llewellyn, da Universidade de Cambridge, avaliou o índice da presença da vitamina em mais de 1.700 ingleses com mais de 65 anos. Os voluntários foram divididos em quatro grupos de acordo com os índices da substância encontrados no sangue: profundamente deficiente, deficiente, insuficiente e excelente; em seguida, foram testados quanto à função cognitiva. Os cientistas descobriram que, quanto mais baixos os níveis, maior o impacto negativo no desempenho na bateria de testes mentais. Se comparados a pessoas do grupo excelente, os que apresentavam valores mais baixos corriam mais risco de ter alguma deficiência mental.


O segundo estudo, conduzido por cientistas da Universidade de Manchester, na Inglaterra, concentrou-se nos níveis de vitamina D e no desempenho cognitivo de mais de 3.100 voluntários entre 40 e 79 anos em oito países europeus. As informações mostram que os participantes com níveis mais baixos demoraram mais tempo para processar informações. Essa correlação foi particularmente expressiva entre os homens com mais de 60 anos.


“O fato de essa relação ter sido estabelecida em larga escala e em um estudo com seres humanos é muito importante, mas ainda há muito a ser estudado. Embora saibamos que o baixo grau da vitamina está associado ao comprometimento mental, não descobrimos se os altos reduziram a perda cognitiva”, salienta Przybelski.


Pelo fato de o comprometimento cognitivo ser, em geral, precursor da demência e do Alzheimer, a vitamina D é tema em constante discussão entre os cientistas que tentam responder a essas questões. Przybelski, por exemplo, planeja um estudo sobre isso para verificar se afetará a incidência de Alzheimer em longo prazo. Então, quanto de vitamina D é suficiente? Alguns especialistas dizem que de 15 a 30 minutos de exposição ao sol, de duas a três vezes por semana, seria o ideal para adultos saudáveis. É importante lembrar que fatores como a cor da pele, o local de residência e a área exposta ao sol afetarão o volume de vitamina D produzido por cada um.
Przbelski

Paixão, amor, casamento...

Paixão, amor, casamento...
Pesquisas neurocientíficas mostram que é possível sentir-se encantado pela mesma pessoa por décadas
Suzana Herculano-Houzel

Você já se imaginou vivendo 10, 20 ou 50 anos com a mesma pessoa? Sentindo sempre o mesmo prazer em sua companhia, o mesmo conforto em seus braços? Se a perspectiva parece interessante, agradeça ao seu cérebro (e se não lhe agrada, a culpa é dele, também). De certa forma, é curioso que laços afetivos fortes, como os amorosos, sejam tão importantes para nossa espécie. Tecnicamente, viver em sociedade, ou mesmo em pares, não é obrigatório para a sobrevivência de nenhum animal – vide tantos mamíferos, aves e outros bichos que procuram um par somente para o acasalamento e imediatamente depois seguem cada um o seu caminho.


Se gostamos de formar pares a ponto de investir boa parte de nossa energia, tempo e esforços cognitivos em convencer um belo exemplar do sexo interessante de que nós somos a pessoa mais sensacional e desejável na face da Terra, é porque o sistema cerebral humano, como o de outros animais sociais, é capaz de atribuir um valor positivo incrível à companhia alheia. Isso é função do sistema de recompensa, conjunto de estruturas no centro do cérebro especializadas em detectar quando algo interessante acontece, premiar-nos com uma sensação física inconfundível de prazer e satisfação e ainda associar esse prazer com o que levou a ele – o que pode ser uma ação, uma situação, um objeto ou... alguém.


Conforme o prazer se repete na companhia dessa pessoa, o valor positivo que atribuímos a ela é reforçado (enquanto torcemos para que o mesmo aconteça no cérebro dela, associando um valor cada vez mais positivo à nossa própria companhia, claro). É o que fazemos no período de namoro, quando conversas interessantes, passeios agradáveis, boa música, boa comida e carinho oferecem prazeres que vão sendo associados à companhia do outro. Se rola sexo, então, melhor ainda: o prazer do orgasmo funciona como uma cola extraordinária para o sistema de recompensa, que atribui (corretamente!) a satisfação incrível àquela pessoa específica (mas é verdade que isso não funciona tão bem em alguns cérebros...).

Conflito entre corpo e alma

Conflito entre corpo e alma
Percepção e emoções femininas estão menos de acordo com as reações fisiológicas do que as masculinas.

Os seres humanos respondem a estímulos sexuais em diversos níveis. Fisicamente, a circulação sanguínea nos genitais aumenta; mentalmente, imagens, sons ou cheiros excitantes atraem nossa atenção e estimulam fantasias. Nas mulheres, porém, esses dois níveis não são tão claros quanto nos homens, relatam pesquisadores coordenados pela psicóloga Meredith Chivers, da Universidade Queen, em Kingston, no Canadá. Para chegar a essa conclusão, o grupo analisou 134 estudos realizados nas três últimas décadas que tratavam do efeito de estímulos eróticos. Nesses experimentos, os cientistas registraram a excitação sexual subjetiva e mediram alterações psicológicas. Meredith e seus colegas tiveram acesso a informações de 2.500 mulheres e 1.900 homens. Essa análise mostrou que em participantes do sexo masculino percepção e emoções estavam mais de acordo com as reações fisiológicas do que nas mulheres. Somente estavam em jogo estímulos variados e em grande quantidade – como vídeos, sons e a participação imaginária das próprias fantasias eróticas – era possível coincidir a excitação declarada pelas mulheres com medidas objetivas.
Meredith Chivers

A mão esquerda sabe o que a direita está fazendo?

A mão esquerda sabe o que a direita está fazendo?
Metade do cérebro humano pode ser motivada a agir enquanto a outra parte é deixada na ignorância

© DORI OCONNELL/ISTOCKPHOTO
Você já se percebeu realizando algum gesto sem se dar conta dele? Sabemos, por exemplo, que é possível afastar um inseto que está voando na nossa frente antes mesmo de perceber conscientemente que ele está lá, ou ainda coçar uma picada de forma automática. Um estudo publicado no periódico Psychological Science realizado por cientistas do Institut National de La Santé (Inserm), em Paris, pode ajudar a explicar esse fato: metade do nosso cérebro pode ser motivada a agir enquanto a outra parte é deixada na ignorância.

Para chegar a essa conclusão, o grupo de cientistas mediu com que força 33 voluntários conseguiam apertar um cabo com cada mão. Em seguida, apresentaram a eles imagens com moedas de 1 euro e de 1 centavo de euro na tela de computador. As moedas eram visíveis apenas para um olho por vez e apareciam durante apenas 17 milissegundos – tempo suficiente para o processamento subliminar, mas não o consciente. Após cada imagem ter piscado, os participantes apertavam o cabo com a mão que o estivesse segurando. Os voluntários foram informados de que ganhariam uma fração maior de dinheiro de acordo com a força que usassem; cada um tentou quatro combinações de olhos e mãos: olho direito com a mão direita ou esquerda e olho esquerdo com a mão esquerda ou direita. Embora não pudessem saber qual moeda observaram – confirmando o fato de que não estavam conscientes do que tinham visto – quando viam a moeda com valor maior, apertavam com mais força se o cabo estivesse posicionado do mesmo lado do corpo que o olho que percebeu o dinheiro. Os apertos não se alteravam dependendo do que o olho oposto enxergava, indicando que apenas metade do cérebro estava sendo motivada.

O neurocientista cognitivo Mathias Pessiglione, coautor do estudo, explica que, às vezes, a motivação não é subconsciente; ela pode também ser “subpessoal”, isto é, parte pode ser estimulada enquanto a outra, não. Assim, na próxima vez que você for surpreendido em meio a uma ação estranha, tente perceber se é responsabilidade das metades independentes do cérebro.
Mathias Pessiglione

Artigo Interessante

Bebês alemães choram diferente dos franceses
Antes do nascimento crianças já se dão conta das características melódicas da língua materna

imagens: © shutterstock
Já nos primeiros dias de vida os recém-nascidos imitam a língua materna. Isso foi o que constatou uma equipe de psicólogos especialistas em desenvolvimento coordenados por Kathleen Wermke, da Universidade de Würzburg, na Alemanha. Com a ajuda de uma análise fonética, os pesquisadores examinaram o choro de 30 recém-nascidos com menos de 5 dias e 30 franceses enquanto suas fraldas eram trocadas. Wermke e seus colegas perceberam que os bebês choravam de forma parecida com a fala dos adultos. A entonação composta por altura e intensidade se desenvolvia de forma característica: a curva do som produzido pelos alemãezinhos atingia seu ponto máximo rapidamente e, em seguida, voltava a cair. Já entre os francesinhos crescia apenas no final do choro. Esses perfis sonoros caracterizam não apenas a melodia da frase, mas também das palavras na fonética de cada língua. Na palavra “mama” em alemão, por exemplo, o acento está na primeira sílaba e no francês, “maman”, na última.


“Aparentemente, antes do nascimento as crianças já percebem as características melódicas da língua materna”, explica a psicolinguista Angela Friederici, do Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Neurológicas em Leipzig. Até agora os cientistas duvidavam que recém-nascidos pudessem imitar por meio do choro o “sotaque” dos adultos tão pouco tempo após o nascimento. Eles supunham que a melodia do choro era muito mais influenciada pelo ritmo respiratório, pois devido à pouca idade eles não conseguiam controlar suficientemente a laringe e os pulmões.
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A caneta de DEUS

A Mãe deu um pulo assim que viu o cirurgião a sair da sala de operações.

Perguntou:
- Como é que está o meu filho? Ele vai ficar bom?
- Quando é que eu posso vê-lo?

O cirurgião respondeu:
- Tenho pena. Fizémos tudo mas o seu filho não resistiu.

Sally perguntou:
- Porque razão é que as crianças pequenas tem câncer? Será que Deus não se preocupa?
- Aonde estavas Tu, Deus, quando o meu filho necessitava?...

O cirurgião perguntou:
- Quer algum tempo com o seu filho? Uma das enfermeiras irá trazê-lo dentro de alguns minutos e depois será transportado para a Universidade.

Sally pediu à enfermeira para ficar com ela enquanto se despedia do seu filho. Passou os dedos pelo cabelo ruivo do seu filho.

- Quer um cachinho dele? Perguntou a enfermeira.
Sally abanou a cabeça afirmativamente.

A enfermeira cortou o cabelo e colocou-o num saco de plástico, entregando-o a Sally.

- Foi idéia do Jimmy doar o seu corpo à Universidade porque assim talvez pudesse ajudar outra pessoa, disse Sally. No início eu disse que não, mas o Jimmy respondeu:
- Mãe, eu não vou necessitar do meu corpo depois de morrer. Talvez possa ajudar outro menino a ficar mais um dia com a sua mãe.

Ela continuou:
- O meu Jimmy tinha um coração de ouro. Estava sempre a pensar nos outros. Sempre disposto a ajudar, se pudesse.

Depois de aí ter passado a maior parte dos últimos seis meses, Sally saiu do "Hospital Children's Mercy" pela última vez.
Colocou o saco com as coisas do seu filho no banco do carro ao lado dela.
A viagem para casa foi muito difícil.
Foi ainda mais difícil entrar na casa vazia.

Levou o saco com as coisas do Jimmy, incluindo o cabelo, para o quarto do seu filho.
Começou a colocar os carros e as outras coisas no quarto exatamente nos locais onde ele sempre os teve.
Deitou-se na cama dele, agarrou a almofada e chorou até que adormeceu.

Era quase meia-noite quando acordou e ao lado dela estava uma carta.

A carta dizia:
-Querida Mãe,
Sei que vais ter muitas saudades minhas; mas não penses que me vou esquecer de ti, ou que vou deixar de te amar só porque não estou por perto para dizer:"AMO-TE".
Eu vou sempre amar-te cada vez mais, Mãe, por cada dia que passe.
Um dia vamos estar juntos de novo. Mas até chegar esse dia, se quiseres adotar um menino para não ficares tão sozinha, por mim está bem.
Ele pode ficar com o meu quarto e as minhas coisas para brincar. Mas se preferires uma menina, ela talvez não vá gostar das mesmas coisas que nós, rapazes, gostamos.
Vais ter que comprar bonecas e outras coisas que as meninas gostam, tu sabes.
Não fiques triste a pensar em mim. Este lugar é mesmo fantástico!
Os avós vieram me receber assim que eu cheguei para me mostrar tudo, mas vai demorar muito tempo para eu poder ver tudo.
Os Anjos são mesmo lindos! Adoro vê-los a voar!
E sabes uma coisa?...
O Jesus não parece nada como se vê nas fotos, embora quando o vi o tenha conhecido logo.
Ele levou-me a visitar Deus!
E sabes uma coisa?...
Sentei-me no colo d'Ele e falei com Ele, como se eu fosse uma pessoa importante.. Foi quando lhe disse que queria escrever-te esta carta, para te dizer adeus e tudo mais.
Mas eu já sabia que não era permitido.
Mas sabes uma coisa Mãe?....
Deus entregou-me papel e a sua caneta pessoal para eu poder escrever-te esta carta.
Acho que Gabriel é o anjo que te vai entregar a carta.
Deus disse para eu responder a uma das perguntas que tu Lhe fizeste,
"Aonde estava Ele quando eu mais precisava?"...
Deus disse que estava no mesmo sítio, tal e qual, quando o filho dele,
Jesus, foi crucificado. Ele estava presente, tal e qual como está com todos os filhos dele.
Mãe, só tu é que consegues ver o que eu escrevi, mais ninguém.
As outras pessoas veem este papel em branco.
É mesmo maravilhoso não é!?...
Eu tenho que dar a caneta de volta a Deus para ele poder continuar a escrever no seu Livro da Vida.
Esta noite vou jantar na mesma mesa com Jesus.
Tenho a certeza que a comida vai ser boa.
Estava quase a esquecer-me: já não tenho dores, o câncer já se foi embora.
Ainda bem, porque já não podia mais e Deus também não podia ver-me assim.
Foi quando ele enviou o Anjo da Misericórdia para me vir buscar.
O anjo disse que eu era uma encomenda especial! O que dizes a isto?...
Assinado com Amor de Deus, Jesus e de Mim.
Desconhecido

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Imagens ao Vivo da ocupação do complexo do Alemão. 28 11 2010.. Parte 4..

Fim do Ano...

Os meses “bro” chegaram e vão terminar rapidinho… O ano está no final e a gente se pega na correria, tentando terminar tudo a que nos propusemos antes do prazo fatal de 31 de dezembro.

“As pessoas que sofrem de ansiedade sentem que pioram nesta época; é muito comum também uma certa melancolia e até uma dose de depressão quando a tendência geral é a de se fazer um balanço e perceber que nem todas as resoluções tomadas no início do ano foram cumpridas”, diz a fisioterapeuta e acupunturista Máera Moretto, de São Paulo.

“Costumo receber gente em meu consultório com sintomas típicos dessa época — ou até com sintomas mais agudos. Pressão alta, dor de estômago, angústia e pânico são alguns deles. A receita de alimentação, exercícios, relaxamento, que consegui formular em meu livro se baseia na Medicina Tradicional Chinesa, com sua sabedoria secular.”

Autora do livro O mestre do seu sistema: o caminho de volta da ansiedade e da síndrome do pânico (Sá Editora), lançado recentemente, Máera Moretto tem dado palestras divulgando seu livro e seu trabalho em São Paulo, Campinas e Santos.

Em O mestre do seu sistema, ela nos conta vários casos típicos de pacientes que sofrem, muitas vezes, sem identificar a doença. “As pessoas esquecem – ou nem mesmo sabem – como pedir ajuda para sair de uma crise. No meu livro, aconselho várias práticas simples, mas fundamentais, para melhorar e controlar a ansiedade ou a síndrome do pânico.”

Consideradas o “mal do século”, as doenças emocionais causam desconforto para milhões de pessoas no mundo atualmente. Se você sente ansiedade, relaxe, é normal… Mas não deixe de procurar ajuda no ano que vem!

Título do livro: O MESTRE DO SEU SISTEMA Autora: MÁERA MORETTO

Fé, Arma Poderosa...

Fé, Arma Poderosa
Por: Magnolia Pires

O que é a fé? No dicionário temos o significado da fé como confiança, crédito e crença religiosa, porém o livro da vida que é a Bíblia, em Hebreus11. 1, diz que a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não vêem. Como eu posso ter certeza de algo que não vejo? Exatamente usando a fé sobrenatural. No plano natural você vê para crer, no plano sobrenatural, você crê para ver. Como explicar a fé? A fé não se explica, ela se faz presente na nossa vida.A sabedoria humana não entende a fé e não pode explicá-la, ela é nos revelada pelo poder de Deus. A palavra da Bíblia afirma que a fé sobrenatural se apóia no poder de Deus, ao contrário da fé natural que se apóia na sabedoria humana. “Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.” (1Co2: 5 ) “Mas Deus no-las revelou a nós por meio do Espírito; porque o Espírito tudo esquadrinha, mesmo as profundezas de Deus.” (1Co 2.10). Essa mensagem está no livro Fé Arma Poderora da escritora Magnolia Pires, o livro apresenta uma linguagem clara e objetiva proporcionado dessa forma maior interação entre a autora e o leitor. Navegue nesse universo sobrenatural e descubra qual o principal canal que liga Deus a Sua criatura.

Secretário de Segurança afirma que o Complexo do Alemão continuará ocupado e comemora operação

Soldados durante a ação no Complexo do Alemão; José Beltrame afirma que a área permanecerá policiada. Secretário de Segurança afirma que o Complexo do Alemão continuará ocupado e comemora operação

Rio de Janeiro. O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, afirmou que os próximos passos da estratégia de combate ao tráfico no Rio incluirá as comunidades do Vidigal e Rocinha, localizadas na zona Sul da cidade. Beltrame enviou um recado para os bandidos: "Quem apostar na derrota, vamos dobrar a aposta". Ele comemorou o resultado da operação na Vila Cruzeiro e Alemão, mas frisou os desafios da política de segurança no Rio. "Não resolvemos todos os problemas, a caminhada é muito grande, não tem jogo ganho, não tem partida ganha, há muito o que fazer, mas já demos um passo importantíssimo", disse.

Indagado por jornalistas sobre uma possível manutenção da força dos traficantes que conseguiram fugir da Vila Cruzeiro e do Alemão, Beltrame disse que mesmo os que escaparam estão enfraquecidos. "Há marginais presos e posso garantir que os que fugiram, sem arma, sem casa, sem território, são muito menos marginais do que eram antes", ressaltou. Ele ainda prometeu que o Complexo do Alemão continuará ocupado. "Podemos garantir que aquela área vai permanecer ocupada e policiada", afirmou ele, que chamou o território resgatado de "o coração do mal".

Página virada

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, afirmou que a reconquista do território do Complexo do Alemão é um passo fundamental e decisivo na política de segurança pública traçada para o Rio de Janeiro. Cabral acrescentou que as operações policiais estão virando uma página na história do Estado, mas lembra que esse é um trabalho de médio e longo prazos. Segundo ele, o Rio está sendo recuperado de uma situação de décadas de mazelas. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, parabenizou o policiamento envolvido na operação. Estou muito orgulhoso como prefeito e carioca por esse momento histórico, que significa a libertação de milhares de pessoas de bem que eram reféns de criminosos covardes", afirmou.

CAPTURA IMPORTANTE

Assassino de Tim Lopes é preso após 3 anos foragido

Rio de Janeiro. Um dos assassinos do jornalista Tim Lopes e foragido da Justiça desde 2007, o traficante Elizeu Felício de Souza, o Zeu, de 31 anos, foi preso por policiais do 17.º Batalhão da PM (Ilha do Governador), na localidade do Coqueiro, no Complexo do Alemão. Foi uma das mais importantes capturas durante a ocupação do complexo. O traficante deve ser transferido hoje para um dos presídios federais do País, segundo o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, desembargador Luiz Zveiter. Zeu foi achado a partir de informações de moradores, que zombaram do traficante quando ele se entregou. "Cadê o machão, Zeu?", gritavam alguns enquanto o criminoso era levado pela polícia. De acordo com o comandante do 17.º BPM, tenente-coronel Marcos Neto, Zeu foi encontrado desarmado e sozinho. Ele ainda tentou esboçar resistência, não queria sair de casa, mas, após negociar com os PMs, rendeu-se.

Zeu havia sido condenado como o homem responsável por comprar o combustível usado para queimar o corpo do jornalista Tim Lopes. Repórter da TV Globo, Tim produzia reportagem sobre a exploração sexual de menores em bailes de traficantes na Vila Cruzeiro, quando foi capturado, torturado e morto pela quadrilha liderada por Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, em junho de 2002.

Fonte: Diário do Nordeste
Postado por Dihelson Mendonça

FIUK

Adolescer no mundo atual

GERAÇÃO DELIVERY
Adolescer no mundo atual
Cybelle Weinberg (Org.)

Ser adolescente, hoje, é muito mais difícil do que foi em épocas passadas, ainda que aparentemente as coisas estejam muito mais fáceis para os jovens. Os pais são mais compreensivos, mais tolerantes, há maior liberdade sexual, maior liberdade de expressão, maior liberdade para escolha profissional. Essa dupla mensagem da sociedade, por um lado acreditando que hoje tudo é mais fácil e por outro sendo cada vez mais exigente no que diz respeito à competência profissional, à estética, ao sucesso, etc, é responsável por novos sintomas que se manifestam nas relações familiares, na escola e no próprio corpo.

Por isso se justifica reunir num mesmo livro assuntos tão diversos quanto adoção, relações incestuosas, sexualidade e gravidez na adolescência, escolaridade, depressão pânico, drogadição, transtornos alimentares.

São assuntos delicados, exigiram talento, conhecimento e experiência dos autores dos diversos capítulos. Cada um, a seu modo e a seu estilo, e de acordo com sua especialidade, soube superar as dificuldades do tema, a principal delas a de não culpar ninguém, mas compreender.

Estas são as palavras de ordem do mundo contemporâneo. Se o mundo está difícil para nós, adultos, o que pensar para os adolescentes?

Adoção, relações incestuosas, sexualidade e gravidez na adolescência, escolaridade, depressão pânico, drogadição, transtornos alimentares,são assuntos delicados tratados por profissionais experientes, autores dos diversos capítulos deste livro, destinado prioritariamente a pais, professores, orientadores e outros profissionais que trabalham com adolescentes.

Vivemos a época do delivery – entrega-se de tudo hoje em dia: pizzas, vídeos, flores, livros, remédios, eletrodomésticos, maconha. Nossos jovens estão crescendo num mundo de entregas rápidas, de soluções imediatas, de falta de espaço para a espera e o amadurecimento.

É o mundo do fast food, do e-mail, do video clip. Do “tudo entregue na mão”. E já! Como exigir desses jovens, que têm tudo à mão, desde as entregas do motoboy, até as facilidades proporcionadas por pais e professores, que saiam à luta, que encarem as frustrações que toda conquista requer?

Na contramão do delivery

Esse é um dos sentidos do delivery de que falam os autores. O outro é o do próprio “delivery de adolescentes”: meninos e meninas sendo entregues aos cuidados da escola, do motorista, da professora particular, do médico, do terapeuta. Entregues a qualquer um que seja capaz de estabelecer limites, porque os pais, também estão tendo dificuldades em exercê-lo.

Geração perdida?

Pensando nas muitas queixas que tem ouvido de pais e professores, de
que “essa geração está perdida”, a autora convidou profissionais que trabalham com adolescentes, em diferentes áreas, para contarem sua experiência. E todos os autores presentes, com muita delicadeza, puderam mostrar que esta geração não está perdida. Que perdidos estarão os adultos se não compreenderem que, apesar do descartável e do vapt-vupt, os adolescentes precisam da solidez dos valores e da experiência dos mais velhos. Ainda que, do alto da onipotência juvenil, achem isso tudo muito ultrapassado.


Seja jovem, seja feliz, seja magro, seja bem informado, seja alguém de sucesso!

Estas são as palavras de ordem do mundo contemporâneo. Se o mundo está difícil para nós, adultos, o que pensar para os adolescentes?

Vivemos numa época em que as mudanças, decorrentes de novas descobertas e invenções, ocorrem num ritmo vertiginoso.

A minha questão é: o que os jovens estão fazendo com essas novas informações, em que estão sendo beneficiados e/ou perturbados pelas transformações sociais?

O que tenho ouvido na clínica e fora dela são queixas de adolescentes que se sentem perdidos, apáticos ou ansiosos quanto ao seu futuro. Os pais parecem ainda mais perdidos do que eles. O que significa, então, adolescer no mundo atual?

Outro dia, conversando com um jovem rapaz sobre seu amigo que caíra em profunda depressão, ele me fez a seguinte observação, num tom mais de constatação do que de melancolia: “É, deu tudo errado!”

Perguntei-lhe o que significava esse seu comentário, e ele me disse: “Veja meus pais e os amigos dos meus pais: são gente boa, deram duro na vida, investiram na gente, fizeram tudo o que puderam. E olhe nós: um drogado, outro deprimido, outro que morreu, outro que surtou, outro que não conseguiu estudar, outro que não tem profissão… É isso, eu não sei por quê, mas deu tudo errado!”

Este livro, destinado prioritariamente a professores, orientadores e outros profissionais que trabalham com adolescentes, é uma tentativa de responder a esse jovem. E a todos aqueles que sentem que deu tudo errado.

Todos os que aqui escrevem – médicos, psicanalistas, psicopedagogos, professores – têm como objetivo mostrar que esses adolescentes, assim como seus pais, “não deram” nem “fizeram” tudo errado. Mas esta geração, por ser de transição, fim de milênio, uma época de mudanças de valores, sofre “na pele” as conseqüências dessas transformações.

Ser adolescente, hoje, é muito mais difícil do que o foi em épocas passadas, ainda que aparentemente as coisas estejam muito mais fáceis para os jovens. Os pais são mais compreensivos, mais tolerantes, há maior liberdade sexual, maior liberdade de expressão, maior liberdade para escolha profissional, maior liberdade para isto, maior liberdade para aquilo.

Os adultos dizem que no seu tempo não era assim, que era tudo mais difícil, que seus pais não os compreendiam, que era preciso “pegar cedo no batente”, que logo deixaram a casa dos pais e foram cuidar da própria vida. Então, parece que realmente hoje está tudo mais fácil.

No entanto, o que vemos são jovens com pouca iniciativa, angustiados diante da escolha profissional, deprimidos, estressados, com dificuldade para sair da casa dos pais e definir seu próprio caminho. Evidentemente, isso não pode ser generalizado, mas é espantoso o número de meninos e meninas nesta situação.

Analisemos, então, algumas destas “facilidades” do mundo moderno – sexo, por exemplo. Realmente, falar sobre sexo, hoje, é muito mais fácil do que antigamente. Discute-se sexo na escola, em casa, na televisão. É mais fácil fazer sexo, também. Existe a pílula anticoncepcional e uma maior tolerância dos pais com relação à prática sexual dos filhos.

Por outro lado, o sexo, hoje, está associado ao perigo da Aids. Morte e sexualidade caminham juntas. À insegurança das primeiras experiências sexuais juntou-se o medo da contaminação. Além disso, sabendo dos riscos de uma gravidez precoce, alguns pais, aflitos (e com razão!), se antecipam aos pedidos dos filhos, levando a pobre menina de doze anos ao ginecologista, assim que ela diz que “ficou” com aquele menino. Ou comprando caixas de camisinhas para o moleque que mal saiu das fraldas! Isso apavora qualquer criança, principalmente numa fase da vida em que a privacidade é tão prezada.

Aliás, esta é outra questão: há privacidade no mundo contemporâneo? De tudo se fala abertamente. Pais comentam com os filhos sobre sua vida sexual. Se são separados, contam aos filhos sobre seus namoros, paqueras, com quem “ficaram”. Não parece que as coisas estão um pouco invertidas? Não é (ou era) esse justamente o papel dos pais, escutar as aventuras dos filhos?

Será que ser amigo é ser confidente? Atendo uma garota que me diz que ela e a mãe são muito amigas, que a mãe lhe conta tudo, não tem segredos para com ela. Só que ela não conta tudo à mãe. Primeiro, porque não sobra espaço para ela, pois sente que suas histórias “são um lixo” comparadas com as grandes histórias da mãe. E depois, porque a mãe faz tantas coisas de adolescente, que ela se pergunta quem deve dar conselhos a quem.

Na televisão, e em qualquer revista, já faz parte de toda entrevista perguntar sobre a vida sexual do entrevistado, quando transou pela primeira vez, se foi bom, com quem foi, se já teve experiências homossexuais. Na novela, todo mundo transa “no ar”. Eu me pergunto o que esse saber acrescenta na formação de uma criança.

Antigamente, havia coisas que as crianças não podiam saber. É verdade que alguns pais exageravam. Mas, de qualquer forma, havia uma limite, um saber que separava o mundo adulto do infantil. Hoje, caiu-se no extremo oposto. As crianças sabem tudo. (Aliás, mais do que nós, adultos: chamamos as crianças para programar o vídeo, para fazer a gravação da caixa postal do celular, para fazer os gráficos das nossas palestras…)

Esse saber, penso, roubou o “infantil” das crianças. Aliás, não só o saber, mas também a moda e o excesso de erotização. O que se vê são crianças falando como adultos, se vestindo como adultos, dançando e rebolando como adultos. E, em contrapartida, adultos cada vez mais infantilizados… mas muito moderninhos!

Outra “facilidade”: famílias mais abertas, sem aqueles papéis rígidos de antigamente. É claro que isso é muito bom. Porém, com medo de repetir a educação repressora que tiveram, alguns pais caem no extremo oposto. Passam do “não poder nada” de antes para o “pode tudo” de hoje. O resultado é que esses pais se perdem no meio do caminho, e o que mais tenho ouvido são pessoas pedindo, pelo amor de Deus, que alguém os ensine a ser pais.
Além desta dificuldade, acrescente-se a competição que se instalou dentro da família.

Há uma falsa promessa, veiculada pela mídia, de que ser jovem é ser feliz. Ninguém quer envelhecer, ninguém quer sair do palco. Pais e filhos estão competindo: quem tem mais sucesso com as mulheres, quem usa a saia mais curta, quem tem os seios ou o bumbum mais arrebitado – nem que para isso se carregue quilos de silicone ou se faça implante na careca.

Os pais estão se pregando uma peça quando saem do seu papel, quando pretendem ser coleguinhas dos filhos: os jovens precisam de adultos fortes, que resistam a um enfrentamento. Do contrário, o que sobra para o adolescente é um profundo sentimento de decepção. Passaram a vida toda esperando “crescer” e, quando crescem, se perguntam: “Mas, espere aí, foi para isso que eu cresci? Para ser igual a vocês? É melhor continuar criança!”

Ou, como me disse um rapaz: “Ser adolescente é cair na real, é sair do sonho da infância e cair na real, que vai durar para o resto da vida”.

Esse “cair na real” é, também, admitir que os pais são frágeis, que tentaram e fizeram o que puderam fazer, que não são imortais, mas que, pelo contrário, não só vão morrer um dia como já estão envelhecendo. Porém, se os adultos se recusam a envelhecer, como é que fica?

Outro problema é que os pais, que passaram a vida dizendo ao filho que o importante é ser feliz, se arrepiam quando eles jogam tudo para o alto e obedecem direitinho. Outra contradição da modernidade.

Enfim, essa dupla mensagem da sociedade, de um lado acreditando que hoje tudo é mais fácil e por outro sendo cada vez mais exigente no que diz respeito à competência profissional, à estética, ao sucesso, etc., é responsável por novos sintomas que se manifestam nas relações familiares, na escola e no próprio corpo. Por isso se justifica reunir num mesmo livro assuntos tão diversos quanto adoção, relações incestuosas, sexualidade e gravidez na adolescência, escolaridade, depressão, pânico, drogadição, transtornos alimentares.

São assuntos delicados – exigiram talento, conhecimento e experiência dos autores dos diversos capítulos. Cada um, a seu modo e ao seu estilo, e de acordo com sua especialidade, soube superar as dificuldades do tema, a principal delas a de não culpar ninguém, mas compreender.

Crise de pânico, depressão, violência, drogadição, anorexia… Talvez sejam essas as formas, bastante trágicas, que nossos adolescentes encontraram para denunciar. Ao ideal do prazer e da beleza respondem com a morte e com a dor. Ao seja feliz respondem com a busca de um prazer ilimitado. Ao seja esbelta respondem com uma magreza cadavérica.

E os outros, os adolescentes que não adoecem, que não dão trabalho, onde estão?
Vivemos o fim das ideologias, não há conflito de gerações, não há contra o quê se rebelar. Eles estão em casa, pedindo pizza pelo telefone, assistindo ao filme alugado, navegando na Internet. Sair de casa? Pra quê?