quarta-feira, 31 de março de 2010

Frenologia

Frenologia: A História da Localização Cerebral
Renato M.E. Sabbatini, PhD
Atualmente, até mesmo um estudante de escola secundária menos informado sabe que muitas funções do cérebro são desempenhadas por determinadas estruturas e não por outras. Por exemplo, a parte externa do cérebro, chamada córtex, tem regiões que são responsáveis por diferentes funções, tais como a percepção da visão, o controle do movimento e da fala, assim como as faculdades mentais superiores (cognição, visão, planejamento, raciocínio, etc). Esta doutrina, que tem sido comprovada muitas vezes na era moderna por equipamentos, apoiados por computadores, que possibilitam a visualização precisa de uma determinada função quando ela está sendo realizada pelo cérebro, é chamada de localizacionismo cerebral. Mas isto não era assim nos anos finais do século XVIII, o século do iluminismo. O conhecimento a respeito do cérebro era pequeno e dominado por especulações não científicas. A experimentação objetiva com animais ainda era rara e um dos mais poderosos métodos para inferir a função cerebral que é a observação de pessoas com danos neurológicos devido a lesões localizadas do cérebro, tais como tumores, ainda estava em seus estágios iniciais.
A fonte principal de conhecimento sobre o cérebro eram as dissecções feitas em cadáveres de animais e seres humanos. A localização da função no cérebro podia somente ser imaginada a partir do fato de que existiam muitas estruturas anatômicas de formato diferente, de modo que talvez elas pudessem ser responsáveis por diferentes faculdades mentais.
Em meio a este cenário desencorajador, surge o médico austríaco Franz Joseph Gall (1758-1828), que foi o pioneiro da noção de que diferentes funções mentais são realmente localizadas em diferentes partes do cérebro.
Isto aconteceu há exatamente 200 anos atrás, em 1796 ! Como nós veremos, ele estava certo nesta noção, mas totalmente errado na maneira como isso é conseguido pelo cérebro. Como resultado, ele produziu a frenologia (de phrenos= mente e logos= estudo), a primeira teoria completa de localizacionismo cerebral. Esta foi certamente uma grande vitória. Entretanto a frenologia mais tarde foi descartada e punida pelo estabelecimento científico como uma forma crua de charlatanismo e pseudociência, mas a sua importância histórica permanece, e esta é a razão para o presente artigo.
A Teoria por trás da Frenologia
Gall, em seu notável trabalho "A anatomia e Fisiologia do Sistema Nervoso em Geral e do Cérebro em Particular", colocou os princípios no qual ele baseava a sua doutrina de frenologia.
Primeiro, ele acreditava que as faculdades morais e intelectuais do homem são inatas e que sua manifestação depende da organização do cérebro, o qual ele considerava ser o órgão responsável por todas as propensões, sentimento e faculdades.
Segundo, Gall propôs que o cérebro é composto de muitos sub-órgãos particulares, cada um deles relacionado ou responsável por uma determinada faculdade mental. Ele propôs também que o desenvolvimento relativo das faculdades mentais em um indivíduo levaria a um crescimento ou desenvolvimento maior de sub-órgãos responsáveis por eles.
Finalmente, Gall propôs que a forma externa do crânio reflete a forma interna do cérebro e que o desenvolvimento relativo de seus órgãos causam mudanças na forma do crânio, que então poderia ser usadas para diagnosticar faculdades mentais particulares de um dado indivíduo, ao se fazer a análise adequada.
De fato, a teoria de Gall foi construída ao revés do que afirmamos acima. Ele primeiro realizou observações numerosas e cuidadosas e fez muitas medidas experimentais em crânios de seus parentes, amigos e estudantes. Posteriormente, com a ajuda de seus associados, ele fez a mesma coisa com muitas pessoas com diferentes caracteristicas de personalidade. Gall pensava que ele conseguia correlacionar certas faculdades mentais particulares a elevações e depressões na superfície do crânio, suas formas exteriores e dimensões relativas. Ele poderou então, sobre a possibilidade de que essas marcas externas poderiam ser causadas pelo crescimento de estruturas cerebrais internas e que este crescimento estaria relacionado ao desenvolvimento de faculdades mentais associadas. Assim, ele conseguiu produzir uma teoria completa e extensa para apoiar o seu trabalho e para usá-lo para aplicações práticas nas ciências mentais, por meio de mapas topológicos detalhados.
O colaborador mais importante de Gall foi Johann Spurzheim (1776-1832), que mais tarde o ajudou a ampliar o assim chamado modelo frenológico e disseminá-lo na Europa e EUA.
O Destino da Frenologia
A estrutura lógica e fácil de aprender da teoria frenológica rapidamente capturou a imaginação de milhares de seguidores. A precisão e grau de segurança científica destes termos e mapas fizeram grande progresso no tempo em que os principais inimigos do racionalismo eram a religião, a subjetividade e a autocracia. Devido a isto, Gall ganhou o apoio, assim como as mentes, de muitas figuras científicas e políticas importantes em muitas partes do mundo. Ele era o seu campeão, em um terreno dominado pelos ensinamentos de filósofos religiosos.
Eventualmente, a frenologia foi atacada pela ciência oficial, que não pôde corroborar a teoria de Gall com achados concretos. Já em 1808, o Instituto da França reuniu um comitê de sábios liderado por Cuvier, que declarou que a frenologia não era confiável (alguns historiadores suspeitam que eles também não tinham evidências científicas para apoiar esta informação, e que a conclusão foi forçada por Napoleão Bonaparte, que estava furioso porque a interpretação de Gall sobre seu crânio tinha "esquecido" algumas qualidades nobres que ele pensava que tinha...).
A frenologia foi comparada a outras formas de charlatanismo, principalmente devido aos abusos nas mãos de empresários comerciais suspeitos. Sua morte aconteceu nos últimos 25 anos do século IXX. Entretanto, ela deu origem a muitos outros ramos científicos e pseudocientíficos baseados na análise quantitativa de características faciais e craniais, tais como a craniologia, antropometria e psicognomia, muitos dos quais sobreviveram bem até em eras modernas. Surpreendentemente, ainda existem seguidores e crentes da frenologia entre nós.

Sonho

Entendendo os Sonhos
Silvia Helena Cardoso, PhD
Sonhar permite que cada um
e todos de nós sejamos loucos,
silenciosamente e com segurança,
cada noite de nossas vidas.
William C. Dement, pesquisador de sono e sonhos

Ao longo de sua história, a humanidade tenta entender o significado dos sonhos. Desta questão cuidaram os filósofos, místicos e cientistas, chegando eles às mais diferentes respostas. Diversas culturas antigas e mesmo muitas atuais, interpretam os sonhos como inspirações, sinais divinos, visões proféticas, fantasias sexuais, realidade alternativa, e diversas outras crenças, medos e conjecturas, dada a sua natureza intrigante e enigmática.
Em 1900, em seu livro "A Interpretação dos Sonhos", Sigmund Freud defendia a idéia de que os sonhos refletiam a experiência inconsciente. Ele teorizou que o pensamento durante o sono tende a ser primitivo ou regressivo e que os efeitos da repressão são reduzidos. Para ele, os desejos reprimidos, particularmente aqueles associados ao sexo e à hostilidade, eram liberados nos sonhos quando a consciência era diminuída.
Entretanto, naquela época, a fisiologia do sono e sonhos era desconhecida, restando a Freud apenas a sua interpretação psicoanalítica dos sonhos.
Somente na década dos 50, com a descoberta de que os movimentos rápidos dos olhos (o chamado sono REM, ou Rapid Eyes Movement sleep), eram frequentemente um indicativo de que o indivíduo estava sonhando (3), uma nova era da pesquisa sobre sonhos emerge, e alguns elementos da psicanálise tiveram que ser modificados ou abandonados.
Hoje sabemos que os sonhos são entendidos como parte do ciclo do sono determinado biologicamente. Diversas teorias tem sido descritas, baseadas em achados neurofisiológicos e comportamentais, seja através do registro de ondas cerebrais, seja por estudos com lesão e estimulação de estruturas no cérebro (de animais) que são acreditadas estarem envolvidas com os sonhos.
Por que o cérebro sonha?
De natureza muitas vezes bizarra, irreal e confusa, os sonhos são especulados por alguns estudiosos do sono e sonhos como sendo um meio pelo qual o cérebro se livra de informações desnecessárias ou erradas durante o período em que o indivíduo está acordado - um processo de "desaprendizagem" ou aprendizagem reversa, proposta por Francis Crick e Graeme Mitchison, em 1983 (5). Estes pesquisadores postularam que o néocortex, uma complexa rede de associação neural, poderia se tornar carregado por grandes quantidades de informações recebidas. O neocórtex poderia desenvolver, então, pensamentos falsos ou "parasíticos", pensamentos estes que comprometeriam o armazenamento verdadeiro e ordenado da memória.
Isto explicaria porque as crianças, cujo rítmo de aprendizagem é intenso, apresentam mais sono REM que os adultos. Elas necessitariam, segundo esta idéia, esquecer as diversas associações erradas ou sem sentido que se formam durante a sua aprendizagem quando estão acordadas, favorecendo, desta forma, o armazenamento das associações ou informações que são verdadeiramente importantes.
Em linha semelhante de pensamento, outros estudiosos teorizaram que os sonhos consistem de associações e memórias eliciadas da parte frontal do cérebro, em resposta a sinais randômicos do tronco encefálico. Estes autores (13), sugeriram que os sonhos são o melhor "ajuste" que o cérebro frontal poderia fornecer a este bombardeamento randômico do tronco cerebral. Nesta proposição, os neurônios da ponte, via tálamo, ativariam várias áreas do córtex cerebral eliciando imagens bem conhecidas ou mesmo emoções, e o córtex então, tentaria sintetizar as imagens disparadas. O sonho "sintetizado" pode ser completamente bizarro e mesmo sem sentido porque ele está sendo desencadeado por uma atividade semi-randômica da ponte (veja Substrato Neural dos Sonhos).
William Dement nos chama a atenção para o fato de que cada um de nós somos "loucos", quando, ao sonhar, manifestamos as mais bizarras situações. Outros pesquisadores predizem que falhas na habilidade em processar o sono REM, podem causar fantasias, alucinação e obssessão (9). Outros ainda, afirmam que a falta de sonhos (de sono REM) induz psicoses alucinatórias e outros distúrbios mentais.
Com base em tais achados e teorias, podemos pensar que sonhos são mecanismos de defesa e adaptação, e a "loucura" manifestada durante este estado silencioso e inconsciente, parece ser necessária para que nos mantenhamos "sãos" durante o nosso agitado estado de consciência.

É possível saber quando uma pessoa está sonhando?
O significado dos sonhos
Neurobiologia dos sonhos: (Atividade elétrica) (Substrato neural)
Por que não atuamos durante o sono e sonhos?
Os animais sonham?
Nós precisamos sonhar?

Recursos sobre sono e sonhos
Referências Bibliográficas

Cerebro e Música

Cérebro e Música
(Discussão extraída do curso a distância de Neuroanatomia)
28 de Março, 2004
(by Silvia Helena Cardoso)
See our general discussion section Brainstorming
Sender: Silvia Helena Cardoso
Gostaria de aproveitar os conhecimentos sobre música e neurocognição de cientistas nesta área aqui deste curso e fazer uma ponte com nossa aula atual (SNA).
Uma das coisas que mais me fascina, mas que também me intriga na música (para mim, particularmente a música clássica), é a transformação que ela causa no meu corpo e cérebro. Algumas músicas clássicas, além de promoverem-me diversas reações autonômicas, como lágrimas aos olhos, relaxamento corporal, facial, labial, evocação de memórias relacionadas a ela, maior sensação e percepção da beleza humana, me fazem também sentir "viajar para outras galáxias". Enfim, a música me faz sentir um profundo bem estar.
Por que temos essa sensação?'
Já está provado que o sistema límbico exerce um importante papel na reação à música. No sistema límbico há um grande número de receptores opióides que são altamente sensíveis à presença de endorfinas (aquela que ativa circuitos anti-nociceptivos, ou seja, circuitos atenuadores da sensação de dor). As endorfinas são liberadas através de reações pelo sistema nervoso autonômico. Alguns estudos têm mostrado que ouvir música libera endorfinas, o que então causa a resposta emocional que nós sentimos (Mercédes Pavlicevic, Towards a Music-based Understanding of Improvisation in Music Therapy ).
Estes fatos já estudados e comprovados me levam a outras dúvidas que eu ainda não encontrei na literatura, e que eu gostaria de perguntar a você, Tevão, se já existe algo a respeito:
- Será que a música também atenua a dor, já que ela libera endorfinas? Existe algum trabalho publicado neste sentido?
- E sobre o efeito terapêutico da música: poderia citar alguns e como agem no SNC e SNA? Conheço um estudo feito com crianças que tinham pressão anormalmente alta devido ao acidente nuclear de Chermobyl e que demonstraram um claro efeito simpatolítico com terapia musical. Caso se interesse pelo artigo, veja:
Normalisation of Haemodynamic parameter in children with autonomic nervous system disturbances em:
http://www.scientificmusictherapy.com/06_cerebral_&_%20nervous_system/cerebral_&_nervous_system11haemodynamic.htm
- E finalmente, considerando que a divisão simpática do SNA "energiza" o corpo, como aumentar frequência cardíaca, diparar um rush de adrenalina, etc, e o parassimpático "acalmar" o corpo e trabalhar para conservar energia. Poderíamos deduzir então que alguns tipos de músicas, por exemplo, as mais agitadas afetam o simpático e as mais calmas o parassimpático, certo?
Abraços.
Silvia

Sender: Ademar João Pedron
Dra. Sílvia, talvez possa colaborar com sua pergunta citando o cientista búlgaro Losavov: Ele descobriu que suas folhagens, ele é botânico, estavam verdejantes e belas, porque tinha o costume de ouvir música clássica orquestrada e lente e, num insight, ele resolveu colocar alguns folhagens numa estufa diferente e colocar música com o ritmo de jass e... as plantas começaram a murchar! Ele então foi fazendo outras experiências e acontecia a mesma coisa. Passou entao a fazer testes com animais: vacas e, tocando música clássica e lenta, as vacas davam mais leite e leite com mais gordura e quando tiravam o leite com música jass, as vacas seguravam o leite e havia uma diminuição bastante significativa de leite. Com isso tudo ele concluiu que havia uma mudança cerebral também muito significativa e resolveu fazer o teste com crianças e percebeu uma grande diferença na aprendizagem. Por que ? A explicação dada pela neurolingüística, agora espero uma resposta maior na neuroanatomia, diz que, ouvindo música clássica, orquestrada e lenta a pessoa passa do nível alfa ao nível beta e baixando a ciclagem cerebral aumentam as atividades dos neurônios e as sinapses se tornam mais rápidas e facilitam a concentração e a aprendizagem. Isso estou citando meu livro: Metodologia científica: auxiliar do estudo, da leitura e da pesquisa. 4. ed. Brasília: Edição do Autor, 2003, p. 65.
Pesquisa realizada e depois testadas por mim, do Livro sobre o método de Losavov:
OSTRANDER, Sheila; SCHOEDER, Lynn. Super-aprendizagem pela sugestologia. Rio de Janeiro: Record, 1978.
Pena que o autor é búlgaro, se fosse americano todos já o conheciam... (crítica bem velada, não ?)
Aí vão meus pensamentos. Pedron


Sender: Silvia Helena Cardoso
Caro Ademar,
Interessantíssima sua colocação. Eu já conhecia o autor búlgaro Georgi Lozanovi porque ele está citado no livro que tenho The Photopraphic Mind (ele investigou também este efeito da memória fotográfica além da hipermnésia e outros brain powers). O Psicológo e cientista Lozanovi foi quem primeiro descobriu (em 1960) que certas estruturas musicias permitem aos estudantes absorverem e reterem informação mais rapida e facilmente e nomeou este processo de aprendizagem acelerada.
No método dele, ele usa três formas distintas para acelerar o aprendizado:
- faz uma música introdutória para relaxar os participantes e alcançar um ótimo estado para a aprendizagem
- Em seguida faz um "concerto ativo", no qual a informação a ser aprendida é lida com música expressiva
- E um "concerto passivo" no qual o aprendiz ouve a nova informação lida e falada com um background de música barroca para levar a informação até a memória de longo prazo.
Silvia


Sender: Silvia Helena Cardoso
As características da aprendizagem acelerada são encontradas em muitos fragmentos de músicas barrocas, clássicas e algumas românticas. Nestas músicas, a freqüência cai de uma extensão de 40 a 60 batidas por minuto para um padrão ritmico de aproximadamente uma batida por segundo. Este ritmo é semelhante à batida do coração. Os batimentos cardíacos de uma pessoa ao ouvir este rítmo irão diminuir para seguir a música. Esta "resposta de acompanhamento" significa literalmente estar em sintonia com a música. À medida que o corpo relaxa ao rítmo da música, a mente se torna alerta em uma forma simples de relaxamento - sem concentração, sem meditação, sem focalizar na respiração ou nos músculos para que eles se relaxem. Basta ouvir a música e sua mente simplesmente se abre! E neste estado, os estudantes, mais relaxados (e encantados) são capazes de aprender mais em menor tempo.
Coloco abaixo alguns exemplos deste tipo de música. Ao ouvirem, POR FAVOR não deixem que as endorfinas liberadas pelo seu sistema nervoso autônomo o impeçam de observar o que eu estou querendo mostrar: uma batida por segundo, muito sútil, no fundo da música (é como um TUM, TUM, TUM bem suave, como a batida do coração) (talvez seja mais difícil alguns perceberem isso, dependendo do seu sistema de som de seu computador).
Albinoni: Adagio
Pachelbel: Canon in D
Marcello: Adagio from Oboe Concerto
Deleitem-se!
Silvia

Humanos

HUMANOS

Fernando Luís Merízio - Brusque/ SC
Certamente, pensar o tema é muito interessante --- e confesso que li o artigo diversas vezes e o meditei por muito tempo --- pois a questão remete-nos às mais diversas maneiras de compreensão do Ser Humano; a questão pode tornar-se filosófica, humanista, evolucionista, criacionista, restritamente biológica, etc; afinal, concepções de Homem surgem atreladas a visões que se tem sobre a sua origem, sobre a sua evolução, como um todo engendrado.
Inicio pensando no termo "Humano". Sem dúvida a própria aplicação da palavra é uma convenção simbólica que nos diferencia dos demais animais --- nós humanos, eles animais ---. Pretende o termo que haja uma diferenciação, e devemos ter cuidado quando nos utilizamos de expressões que visam a distinção, pois a distinção pressupõe classificação, e nas classificações há: incorporação e exclusão. Estes são humanos, aqueles não são(princípios etnocêntricos) Em nível da análise deste significado sobre a espécie humana, encontramos um motivo para distinguir de nós tudo o que não for humano;; e parece-me um pensamento muito sólido por explicar o quanto a espécie humana se vê superior as demais espécies, e não refiro-me à complexidade biológica (ou cognitiva) mas sim a uma superioridade cultural, que imprime força e poder contra as "espécies inferiores". Cito o artigo: "(...) Todas as suas restrições e debilidades físicas tomando a espécie dominante do planeta, destruindo e devastando aqueles que se opõe, ou usando para si aquelas espécies que são úteis para o seu próprio benefício como as bestas de carga, as cobaias de laboratório, alimento, etc. (...)". Se nós fossemos tigres nos questionaríamos: o que nos faz unicamente felinos? Seria o nosso poder e nosso ato predatório sobre as espécies (culturalmente) inferiores?
Naturalmente, algumas dessas questões implicam na manutenção de nossa própria vida; mas enquanto manutenção da vida; temos um forte aspecto biológico de sobrevivência (instinto de sobrevivência), que os demais animais também tem, a diferença é que transportamos isso para uma esfera de símbolo cultural. E se falamos de símbolo cultural abordamos um aspecto mental de desenvolvimento do cérebro; então, já que sabemos que as mutações são imprevisíveis, que suas possibilidades são infinitas (ou quase infinitas), o que impede, que daqui a bilhões de anos o cérebro de outro animal se desenvolva o suficiente para simbolizar e até gerar cultura? --- Afinal, quem parece ter estagnado na evolução é o ser humano --- Parece até ficção científica ou um abstracionismo criativo; porém, de um "elo perdido", Propliopithecus (através de inferências, talvez) supõe-se que se originaram os macacos e os homens`. O que impede que esta linha prossiga? Ainda mais, se observarmos atentamente às diversas mudanças que estão ocorrendo em nosso universo e planeta: ondas solares que interferem nas telecomunicações, a poluição demasiadamente excessiva em nosso planeta... talvez o meio que tanto transformamos para nossa adaptação forçada e nossos fins (lucrativos), irá requerer uma nova espécie para si; e se realmente o meio o fizer, será uma espécie que saberá viver do meio ambiente sem agredi-lo (note-se: o ser humano é o único animal que produz lixo --- no sentido de degradação ambiental).
Acredito que estas questões são importantes para se pensar o ser humano, e que fins o ser humano inside sobre a sua condição e se realmente será capaz de manter-se! De modo algum defendo uma linha radical de que a espécie humana se extinguirá a si mesma; antes, devemos refletir sobre o que estamos fazendo... talvez descobriremos que Popper tem razão em dizer: "(...) a espécie se utiliza dos indivíduos para a sua manutenção (...)". Mas o quê, ou quem é a espécie? Talvez a espécie seja apenas este movimento que atravez de características/aptidões cerebrais simbolizamos para a nossa diferenciação.
Reavaliando o pensamento do artigo pude obter uma nova perspectiva, que se aproxima ainda mais de algo que deve ser a essência. Sim, o artigo enumera vários aspectos que nos fazem unicamente humanos, as complexas funções cognitivas, a inserção de (infinitos) símbolos, a manipulação do meio, das outras espécies e da própria espécie. Ótimo, tudo isso nos diferencia das demais espécies; mas afinal, o que é ser (verbo) humano? Penso que isso que nós achamos que é ser humano é ser humano por convenção, e não por essência. --- E quando algo foge de sua realidade como Fim ou como Essência, tende a, e conseqüentemente desvirtua-se.--- E isso faz com que tenhamos uma gama infinita de dificuldades, problemas; pois construímos um ser humano a partir de concepções que foram estabelecidas, e ainda, quem modelou esta forma/maneira que é hoje o ser humano sabia como deve ser e viver o Homem para que garanta a Vida (e qualquer espécie de vida) o direito universal de viver?
Porém, devemos pensar (ou melhor, repensar) estas concepções que nos fizeram ser o que somos. Sem dúvida neste aspecto percebemos o quão poderosa tornou-se a cultura: criar um símbolo e atribuir a ele um valor. Esta característica já está muito bem acomodada, no sentido de cultura, para nós humanos.
Devemos nos valer, sempre que possível, quando abordado o tema Ser Humano, de uma reflexão para analisar quem é este ser humano ou o que o fez ser como ele é. Não tenho o objetivo, aqui, de trazer para a questão uma compreensão puramente filosófica; mas sim, estabelecer que a partir de algumas ferramentas, ou estruturas que adquirimos, construímos todo um modo de vida pautado, talvez (ou muito provavelmente), em modos de vida` que não contemplam totalmente a vida, ou todas as formas de vida que compartilham conosco este planeta. Pensar que o que nos faz unicamente humanos` é suficiente para a vida não parece algo suficiente para viver, afinal, dadas todas as qualidades/habilidades que já foram descritas (manipulação do meio, formação de símbolo...), e mesmo assim adaptamos o meio externo sem comprometimento com o mesmo; sem falar das questões da vida social.
Então, qual a relevância para a Vida de saber o que nos faz unicamente humanos? Temos as ferramentas mas não sabemos usá-las, e isto não é uma visão pessimista, mas sim, querer compreender a realidade para pensá-la em uma concepção universal, para abranger em uma totalidade somente concepções que beneficiem sempre a Vida!

Inteligência

Inteligência: Herdada ou Adquirida?
Sou estudante na Universidade de Porto Rico. Terei que definir a inteligência e mostrar duas opiniões contrastantes (uma a favor, uma contra), sobre o tema: "a inteligência é adquirida ou herdada?"
Cristobal Estrada, estudante de Psicologia, Porto Rico

Existe uma considerável controvérsia, não somente porque a ciência não é inteiramente conclusiva, mas também porque ela é carregada com muitas calorosos debates sociais e políticos, particularmente na área racial. Este debate tem se chamado "natureza vs criação" e tem se extendido por décadas.
A definição de inteligência também não é fácil. O melhor argumento sobre a inteligencia que eu conheço foi proposto por Dr. Eisenck, um psicólogo britânico, que definiu os "fatores" da inteligência. Atualmente é aceito que existe diferentes formas de inteligência, a qual varia entre os indivíduos. Por exemplo, "inteligência matemática", "inteligência espacial", "inteligência estética", "inteligência da expressão verbal", etc., se expressam por si mesmas em um único indivíduo. Uma pessoas pode ser altamente inteligente em lidar com números e matemática, mas ser um completo ignorante com relação à inteligência verbal; ou o oposto pode ser verdade em outras pessoas.
Parece haver diferentes formas de inteligência coexistindo na mesma pessoa, tal que a importância da genética (herdada) e ambiental (aprendizagem adquirida) possam ser diferentes. Inteligência espacial, por exemplo, parece ser dependente não somente da herança, mas também daquela ligada ao sexo (os homens são melhores nisso do que as mulheres).
Pesquisas com gêmeos idênticos, as quais foram separados no momento do nascimento, chegaram a conclusão de que aproximadamente 60% de nossa inteligência depende de fatores genéticos, e 40% de fatores ambientais. O principal pesquisador nesta área foi o psicólogo britânico Dr. Burton. Contudo, recentemente seus resultados foram colocados sob suspeita, então, a controvérsia permanece.
Renato M.E. Sabbatini, PhD, Neurocientista e especialista em Informática Médica, Campinas (SP)

Psicopatologia

s Alucinações e os Delírios na Psicopatologia
Dr. Geraldo Ballone
As alucinações e delírios são importantissimos sintomas de muitas doenças mentais, mas principalmente das psicoses, como a esquizofrenia. Os psiquiatrias têm acesso a estes fenômenos apenas através da conversa com o paciente, uma vez que são experiências individuais e íntimas. O seu estudo e conhecimento, entretanto, revelam muitos aspectos interessantes, que iremos apresentar neste breve artigo.
Alucinação é a percepção real de um objeto inexistente, ou seja, são percepções sem um estímulo externo. Dizemos que a percepção é real, tendo em vista a convicção inabalável da pessoa que alucina em relação ao objeto alucinado. Sendo a percepção da alucinação de origem interna, emancipada de todas as variáveis que podem acompanhar os estímulos ambientais (iluminação, acuidade sensorial, etc.), um objeto alucinado muitas vezes é percebido mais nitidamente que os objetos reais de fato.
Tudo que pode ser percebido pelos nossos cinco sentidos (audição, visão, tato, olfato e gustação) pode também ser alucinado. As alucinações sempre aproveitam o material consciente conhecido do pacientes. Na alucinação, por exemplo, um leão pode aparecer de asas, ou um caracol que cavalga um ouriço. O indivíduo que alucina deve ter percebido isoladamente cada um dos objetos e, mentalmente, combina uns com os outros.
Embora as alucinações possam manifestar-se através de qualquer um dos cinco sentidos, as mais freqüentes são as auditivas e visuais.
Quando uma alucinação passa a ser interpretada, como por exemplo, uma alucinação auditiva é interpretada como sendo a voz do demônio, de Deus, dos espíritos mortos ou uma audição telepática, então temos o delírio. Portanto, este, freqüentemente, acompanha a alucinação. Ouvir vozes faz parte da percepção e atribuir a elas algum significado faz parte do pensamento, cujos distúrbios veremos adiante.
Existem dois tipos de delírios: os delírios primários, ou puros, que são um juízo patologicamente falso da realidade. Este juízo falso deve apresentar três características:
1.deve apresentar-se como uma convicção subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável;
2.deve ser impenetrável e incompreensível para o indivíduo normal, bem como, impossível de sujeitar-se às influências de correções quaisquer, seja através da experiência ou da argumentação lógica e;
3.impossibilidade de conteúdo plausível.
Todos os casos que não satisfazem essa tríade não podem ser considerados delírios primários, mas podem ser as chamadas idéias deloiróides, ou delírios secundários.
AS ALUCINAÇÔES
Sendo as alucinações alterações da sensopercepção, é importante saber que existem fatores culturais e pessoais que interferem na percepção. Os valores culturais atribuídos aos objetos, às relações e aos acontecimentos, também podem desempenhar um papel significativo na maneira pela qual os objetos são percebidos.
Por exemplo, os habitantes das ilhas Trobriand (Nova Guiné), apegam-se a uma crença básica, segundo a qual uma criança não poderia jamais ser fisicamente semelhante à sua mãe ou a seus irmãos e irmãs mas apenas ao seu pai. Mesmo quando, para um estranho, havia uma notável semelhança física entre dois irmãos, os nativos eram incapazes (ou não queriam ser capazes) de descobrir qualquer semelhança. Além disso, havia uma tendência inversa para exagerar o menor grau de semelhança facial entre o pai e os filhos.
Como existe considerável amplitude quanto aos aspectos de um objeto que a pessoa pode focalizar e acentuar, também podem existir notáveis diferenças a respeito desses aspectos entre várias culturas. As experiências perceptuais que se tem ao olhar um borrão de tinta, por exemplo, são descritas de maneiras bem diferentes, por pessoas de diferentes sociedades. Essas diferenças, na ênfase perceptual, podem ser interpretadas como reflexos dos valores culturais desses povos.

A pessoa com alucinação tem o senso imediato de que a sua percepção é verdadeira; em alguns casos, a alucinação provém de dentro do corpo. Algumas vezes, a pessoa com alucinação consegue ter o entendimento de que está com uma alteração de registro sensorial . Outras vezes, a intensidade do delírio (que normalmente ocorre junto com alucinação) concede ao indivíduo o peso de que o que percebe é a verdade absoluta. Em um sentido mais restrito, as alucinação indicam um distúrbio psicótico quando associadas a deficiência de prova da realidade.
O termo "alucinação" não se aplica a falsas percepções que ocorrem durante o sonho. Alucinações manifestas em ritos religiosos não têm necessariamente significado patológico. Alucinações transitórias são freqüentes em indivíduo sem distúrbio mental quando submetido à privação física ou psíquica.
Diversos estudos utilizando neuroimagens funcionais, como a ressonância funcional magnética, indicaram que existe uma ativação real de diversas zonas cerebrais, associadas às sensações e percepções normais da esfera afetada.

Imagem de fMRI do cérebro de uma pessoa sofrendo alucinações auditivas e visuais. As áreas em laranja e vermelho representam as partes do cérebro mais ativadas. As zonas mostradas são (da direita para a esquerda), polo occipital (zona visual), polo temporal (zona auditiva), polo frontal (zona motora e área de Broca, da fala).
Alucinações auditivas
Como as mais freqüentes, podem aparecer sob forma de sons inespecíficos, tais como chiados, zumbidos, ruídos de sinos, roncos, assobios, ou vozes, as quais podem ter as mais variadas características: diálogos entre mais de um interlocutor, comentários sobre atos do paciente, críticas sobre a pessoa que alucina, podem ainda, por outro lado, proferir injúrias e difamações, comunicar informações fantásticas, sonorizar o pensamento do próprio paciente ou de terceiros. Na idéia do paciente tais vozes podem ser provenientes do além, do sobrenatural, dos demônios ou de Deus, etc.
Normalmente, a alucinação auditiva é recebida pelo paciente com muita ansiedade e contrariedade pois, na maioria das vezes, o conteúdo de tais vozes é desabonador, acusatório, infame e caluniador. Quando elas ditam antecipadamente as atitudes do paciente falamos em sonorização do pensamento, como se ele pensasse em voz alta ou como se alguma voz estivesse permanentemente comentando todos seus atos: " lá vai ele lavar as mãos", "lá vai ele ligar a televisão" e assim por diante.
Algumas vezes as vozes alucinadas podem determinar ordens ao paciente, o qual as obedece mesmo contra sua vontade. Diante desta situação, de obediência compulsória às ordens ditadas por vozes alucinadas, chamamos de automatismo mental. Esta situação oferece alguma periculosidade, já que, quase sempre, as ordens proferidas são eticamente condenáveis ou socialmente desaconselháveis.
Alucinações visuais
São percepções visuais, como vimos, de objetos que não existem, tão claras e intensas que dificilmente são removíveis pela argumentação lógica. Mesmo o paciente referindo ter visto apenas vultos, tais vultos são muito fielmente percebidos, portanto são reais para a pessoa que os percebe. O objeto alucinado pode não ter uma forma específica: clarões, chamas, raios, vultos, sombras, etc, ou têm formas definidas, tais como pessoas, monstros, demônios, animais, santos, anjos, bruxas.
Há determinadas ocasiões onde o transtorno visual alucinatório adquire a consistência de uma cena, uma situação como, por exemplo, ver uma carruagem passando pela paciente e dela descer um príncipe. Neste caso falamos em alucinações oniróides, como se transcorresse num sonhar acordado. No delirium tremens do alcoolista, por exemplo, as alucinações visuais tem uma temática predominantemente de bichos e animais peçonhentos (cobras, aranhas, percevejos, jacarés, lagartos) e, neste caso, damos o sugestivo nome de zoopsias, promovedoras de grande ansiedade e apreensão.
Nas situações onde o paciente se vê fora de seu próprio corpo falamos em alucinações autoscópicas, quando ele consegue ver cenas e objetos fora de seu campo sensorial, como enxergar do lado de fora da parede.
O conteúdo das alucinações é extremamente variável, porém, guarda sempre uma íntima relação com a bagagem cultural do paciente que alucina. Não é possível alucinar com alguma coisa que não faça parte do mundo psíquico do paciente. Um físico nuclear pode alucinar com um certo brilho atômico a revestir seus inimigos, enquanto um cidadão menos diferenciado, com um espírito do morto a rondar sua casa, ambos porém, independentemente do nível sócio-cultural têm a mesma probabilidade de alucinar. A sofisticação e exuberância do material alucinado dependerá da bagagem cultural de quem alucina mas não interfere na valorização semiológica do fenômeno.
Alucinações táteis
A percepção de estímulos táteis sem que exista o objeto correspondente é observada principalmente nas psicoses tóxicas e nas psicoses delirantes crônicas, como veremos adiante. Nestes casos, principalmente no Delirium Tremens ou na dependência de cocaína, o paciente sente-se picado por pequenos animais, insetos esquisitos, vermes que caminham sobre a pele, pancadas, alfinetadas, queimaduras, estranhos carrapatos que penetraram em algum orifício fisiológico, etc. Não são raros os casos de alucinação tátil que se caracteriza pela sensação de ter-se as pernas puxadas à noite ou estrangulamento, sufocação ou opressão antes de conciliar o sono.
Quando esta percepção falseada diz respeito aos órgãos internos ou ao esquema corporal falamos em ALUCINAÇÕES CENESTÉSICAS. Nestes casos os pacientes sentem como se tivessem seu fígado revirado, esvaziado seu pulmão, seus intestinos arrancados, o cérebro apodrecido, o coração rasgado, e assim por diante. As Alucinações Cenestésicas devem ser diferenciadas das ALUCINAÇÕES CINESTÉSICAS, que não dizem respeito à sensação tátil, mas sim aos movimentos (cine-movimento). Nas cinestesias os pacientes percebem as paredes movendo-se ou eles próprios movendo-se no espaço.
Exemplo: um paciente delirante crônico sentia que seu cérebro estava infestado de germes, os quais, esporadicamente, escorriam-lhe pelo nariz. Neste caso uma Alucinação Tátil Cenestésica. Outro queixava-se de inúmeros percevejos que furavam-lhe a pele o tempo todo. Era um portador de Delirium Tremens, e, inclusive, mostrava os insetos que conseguia apanhar para o médico (zoopsia+aluc. tátil). Trata-se de Alucinações Táteis puras. Outro, já idoso, que sabia ter seus pulmões corroídos por vermes provenientes de carne suína, tossia seguidamente e vivia submetendo-se a freqüentes exames de raios X. Neste último caso, uma Alucinação Cenestésica pura.
Alucinações olfativas e gustativas
Normalmente, as Alucinações Olfativas e Gustativas estão associadas e são raras. Estados delirantes cujo tema diz respeito à putrefação, o gosto e os odores podem ser muito desagradáveis e são percebidos, como é típico de todas alucinações, sem que exista o objeto correspondente ao gosto e ao cheiro. Algumas auras epilépticas determinam o aparecimento de Alucinações Gustativas e/ou Olfativas. Em geral os gostos alucinados aparentam ser de sangue, terra, catarro ou qualquer outra coisa desagradável; os odores podem ser desde perfumes exóticos até de fezes.
OS DELÍRIOS
A prática clínica da psiquiatria deixa bem claro a constatação da primeira regra de diagnóstico do delírio (deve apresentar-se como uma convicção subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável). Diante de um paciente delirante, cuja ruptura com a realidade é evidente, não conseguimos demover tal conteúdo do pensamento mediante qualquer tipo de argumentação. Caso o paciente deixe-se convencer pela argumentação da lógica, razoavelmente elaboradas pelo interlocutor, decididamente não estaremos diante de um delírio, mas sim de um engano por parte do paciente ou de uma formação deliróide. Para ser delírio a convicção dever ser sempre inabalável. A argumentação racional não deve afetar a realidade distorcida ou recriada de quem delira, independentemente da capacidade convincente e da perseverança daquele que se empenhar nesta tarefa infrutífera.
Em relação à segunda regra, sobre a impossibilidade do delírio primário ser compreendido por pessoas que mantém vínculo sólido com a realidade, a lógica da realidade do delirante não é aplicável à lógica dos indivíduos normais, daí a falta de compreensão psicológica do delírio: carece relação entre a temática delirante e os elementos da realidade, notadamente com a conjuntura vivencial do paciente.
Nos casos de delírio secundário, muitas vezes relacionados à vivências traumáticas, eles se apresentam de forma a sugerir um determinado mecanismo de defesa contra uma forte ameaça psíquica, normalmente angustiante. Por exemplo: um jovem de 23 anos, vítima de um acidente do trabalho que lhe custou a perda de quatro dedos da mão direita, começou apresentar uma expressiva inadequação afetiva (ao invés de aborrecido, mostrava-se feliz) e com um delírio no qual julgava-se Deus, cheio de poderes, auto-suficiente e ostensivamente ameaçador para com as pessoas que dele duvidavam. Tal ideação emancipada da realidade poderia ser entendida como um mecanismo de defesa psicotiforme no qual, em compensação mutilação e deficiência, o seu poder passou a ser infinito. Trata-se pois de uma Idéia deliróide, a qual habitualmente pode fazer parte de numa reação psicótica aguda.
Delírios com temática semelhante ou mesmo igual ao exemplo exposto quando surgem em pessoas sem nenhuma vivência justificadora, sem nenhuma possibilidade de redução dinâmica vivencial e impossíveis de conteúdo ou de compreensibilidade são os verdadeiros Delírios Primários. Já, a Idéia Deliróide, seria conseqüência de um estado afetivo subjacente e perfeitamente relacionável com uma vivência expressiva, por isso secundário.
A Idéia Delirante, ou Delírio, espelha uma verdadeira mutação na relação eu-mundo e se acompanha de uma mudança nas convicções e na significação da realidade. O delirante encontra-se imerso numa nova realidade de forma à desorganizar a sua própria identidade e se desorganiza pela ruptura entre o sujeito e o objeto, entre o interno e o externo, ou seja, entre o eu e o mundo. É uma modificação radical das relações do indivíduo com a realidade, manifestando-se através de uma espécie de alienação do Ego.
O grande psiquiatra alemão, Emil Kraepelin escreveu que os "delírios são idéias morbidamente falseadas que não são acessíveis à correção por meio do argumento". Outro grande psiquiatra da éploca, Bleuler, por sua vez dizia que "idéias delirantes são representações inexatas que se formaram não por uma causal insuficiência da lógica, mas por uma necessidade interior. Não há necessidades senão afetivas". Como percebemos, Kraepelin parece deter-se mais naquilo que entendemos por delírio primário, enquanto Bleuler já ventilava uma possibilidade do delírio secundários.
Veremos agora como estão presentes as alucinações e delírios em várias doenças mentais:
Esquizofrenia
Paranóia
Transtornos afetivos (depressão e mania)
Alucinose orgânica
Psicose reativa

ALUCINAÇÕES E DELÍRIOS NA ESQUIZOFRENIA
A esquizofrenia é uma doença da personalidade total, que afeta a zona central do eu e altera toda estrutura vivencial. Culturalmente o esquizofrênico representa o estereotipo do "louco", um indivíduo que produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade reconhecida. Agindo como alguém que rompeu as amarras da concordância cultural, o esquizofrênico menospresa a razão e perde a liberdade de escapar às suas fantasias.
Aproximadamente 1% da população é acometido pela doença, geralmente iniciada antes dos 25 anos e sem predileção por qualquer camada sócio-cultural. O diagnóstico baseia-se exclusivamente na história psiquiátrica e no exame do estado mental. É extremamente raro o aparecimento de esquizofrenia antes dos 10 ou depois dos 50 anos de idade e parece não haver nenhuma diferença na prevalência entre homens e mulheres.
O alienista francês Esquirol (1772-1840) considerava a loucura como sendo a somatória de dois elementos: uma causa predisponente, atrelada à personalidade, e uma causa excitante, fornecida pelo ambiente. Hoje em dia, depois de muitos anos de reflexão e pesquisas, a psiquiatria moderna reafirma a mesma coisa com palavras atualizadas. O principal modelo para a integração dos fatores etiológicos da esquizofrenia é o modelo estresse-diátese, o qual supõe o indivíduo possuidor de uma vulnerabilidade específica colocada sob a influência de fatores ambientais estressantes (causa excitante). Em determinadas circunstâncias o binômio diátese-estresse proporcionaria condições para o desenvolvimento da esquizofrenia. Até que um fator etiológico para a doença seja identificado, este modelo parece satisfazer as teorias mais aceitas sobre o assunto.
Alguns sintomas, embora não sejam específicos da Esquizofrenia, são de grande valor para o diagnóstico. Seriam:
audição dos próprios pensamentos (sob a forma de vozes)
alucinações auditivas que comentam o comportamento do paciente
alucinações somáticas
sensação de ter os próprios pensamentos controlados
irradiação destes pensamentos
sensação de ter as ações controladas e influenciadas por alguma coisa do exterior.
Tentando agrupar a sintomatologia da esquizofrenia para sintetizar os principais tratadistas, teremos destacados três atributos da atividade psíquica: comportamento, afetividade e pensamento. Os delírios surgem como alterações do conteúdo do pensamento esquizofrênico e as alucinações como pertencentes à sensopercepção. Ambos acabam sendo causa e/ou conseqüência das alterações nas 3 áreas acometidas pela doença (comportamento, afetividade e pensamento).
Delírios
Os delírios na esquizofrenia podem sugerir uma interpretação falsa da realidade percebida. É o caso por exemplo, do paciente que sente algo sendo tramado contra ele pelo fato de ver duas pessoas simplesmente conversando. Trata-se, neste caso, de uma percepção delirante. Desta forma, a percepção delirante necessita de algum estímulo para ser delirantemente interpretado (no caso, duas pessoas conversando). Outras vezes não há necessidade de nenhum estímulo à ser interpretado, como por exemplo, julgar-se deus. Neste caso trata-se de uma ocorrência delirante. O tipo de delírio mais freqüentemente encontrado na esquizofrenia é do tipo paranóide ou de referência, ou seja, com temática de perseguição ou prejuízo no primeiro caso e de que todos se referem ao paciente (rádios, vizinhos, televisão, etc) no segundo caso.
Na esquizofrenia os delírios surgem paulatinamente, sendo percebidos aos poucos pelas pessoas íntimas aos pacientes. Em relação ao delírio de referência, inicialmente os familiares começam à perceber uma certa aversão à televisão, aos vizinhos, etc.
Alucinações
As alucinações mais comuns na esquizofrenia são do tipo auditivas, em primeiro lugar e visuais em seguida. Conforme diz Schneider, "de valor diagnóstico extraordinário para o diagnóstico de uma esquizofrenia são determinadas formas de ouvir vozes: ouvir os próprios pensamentos (pensar alto), vozes na forma de fala e respostas e vozes que acompanham com observações a ação do doente". Esta sonorização do pensamento, juntamente com alguns outros sintomas que envolvem alucinações auditivas e sensações de ter os próprios pensamentos influenciados por elementos externos, compõem a sintomatologia que Schneider considerou como sendo de primeira ordem.
Um esquizofrênico pode estar ouvindo sua própria voz, dia e noite, sob a forma de comentários e antecipações daquilo que ele faz ou pretende fazer , como por exemplo: "ele vai comer" ou ainda, "o que ele está fazendo agora ? Está trocando de roupas". Outro sintoma importante no diagnóstico da esquizofrenia é a sensação de que o pensamento está sendo irradiado para o exterior ou mesmo sendo subtraído ou "chupado" por algo do exterior: Subtração e irradiação do pensamento, também considerados de primeira ordem. Igualmente podemos encontrar a sensação de que os atos estão sendo controlados por forças ou influências exteriores.
Todas as demais alucinações, auditivas, visuais, tácteis, olfatórias, gustativas, cenestésicas e cinestésicas, embora sejam consideradas sintomas acessórios por Bleuler, aparecem na esquizofrenia com freqüência bastante significativa. Normalmente as alucinações auditivas são as primeiras a aparecer e as últimas a sumir.
ALUCINAÇÕES E DELÍRIOS NA PARANÓIA
A paranóia é uma entidade clínica caracterizada, essencialmente, pelo desenvolvimento insidioso de um sistema delirante duradouro e inabalável mas, apesar desses delírios há uma curisosa manutenção da clareza e da ordem do pensamento, da vontade e da ação. Ao contrário dos esquizofrênicos e doentes cerebrais, onde as idéias delirantes são um tanto desconexas, neste tipo de psicose delirante crônica as idéias se unem num determinado contexto lógico para formar um sistema delirante total, rigidamente estruturado e organizado.
Trata-se, portanto, do que chamamos de transtorno delirante persistente, cuja principal característica é a presença de um ou mais delírios não-bizarros que persistem por pelo menos um mês. Para o diagnóstico é muito importante que o delírio do transtorno delirante persistente não seja bizarro nem seja desorganizado, ou seja, ele deve ter seu tema e script organizado e compreensível ao ouvinte, embora continue se tratando de uma falsa e absurda crença. As alucinações não são proeminentes e nem habituais, embora possam existir concomitantemente. Quando existem, a alucinações táteis ou olfativas costumam ser mais freqüentes que as visuais e auditivas.
Normalmente o funcionamento social desses pacientes paranóicos não está prejudicado, apesar da existência do delírio. A maioria dos pacientes pode parecer normais em seus papéis interpessoais e ocupacionais, entretanto, em alguns o prejuízo ocupacional pode ser substancial e incluir isolamento social. A impressão que se tem é a de uma ilha de delírio num mar de sanidade, portanto, uma espécie de delírio insular.
Um paciente, por exemplo, convencido de que será assassinado por perseguidores implacáveis pode desenvolver isolamento social e abandonar o emprego. Em geral, além do funcionamentos social comprometido, também o relacionamento conjugal pode sofrer prejuízos. Na dsquizofrenia o comprometimento social mais acentuado costuma ser a regra.
Esses delírios normalmente são interpretativos, egocêntricos, sistematizados e coerentes. Pode ser de prejuízo, de perseguição ou de grandeza, impregnado ou não de tonalidade erótica ou com idéias de invenção ou de reforma. Também é freqüente o delírio de ciúme, mais encontradiço nas mulheres. Estas estão sempre se deparando com provas "contundentes" acerca dos muitos relacionamentos sexuais de seus maridos.
Existem cinco tipos principais de transtornos delirantes persistentes, muitos dos quais já têm termos consagrados até no uso leigo ou vulgar:
Delírio erotomaníaco
Neste caso o delírio habitualmente se refere ao amor romântico idealizado e a união espiritual, mais do que a atração sexual. Acreditam, freqüentemente, ser amados por pessoa do sexo oposto que ocupa uma posição de superioridade (ídolos, artistas, autoridades, etc.) mas, pode também ser uma pessoa normal e estranha.
Delirio de grandeza
Neste subtipo a pessoa é convencida, pelo seu delírio, possuir algum grau de parentesco ou ligação com personalidades importantes ou, quando não, possuir algum grande e irreconhecível talento especial, alguma descoberta importante ou algum dom magistral. Outras vezes acha-se possuidor de grande fortuna.
Delírio de ciúme
Neste tipo a pessoa está convencida, sem motivo justo ou evidente, da infidelidade de sua esposa ou amante. Pequenos pedaços de "evidência", como roupas desarranjadas ou manchas nos lençóis podem ser coletados e utilizados para justificar o delírio. O paciente pode tomar medidas extremas para evitar que o companheiro(a) proporcione a infidelidade imaginada, como por exemplo, exigindo uma permanência no lar de forma tirana ou obrigando que nunca saia de casa desacompanhado(a).
Delirio persecutório
É o tipo mais comum entre os paranóicos ou delirantes crônicos. O delírio costuma envolver a crença de estar sendo vítima de conspiração, traição, espionagem, perseguição, envenenamento ou intoxicação com drogas ou estar sendo alvo de comentários maliciosos.
Delírio somático
Também chamada de parafrenia, caracteriza-se pela ocorrência de variadas formas de delírios somático e, neste caso, com maiores possibilidades de alucinações que outros tipos de paranóia. Os mais comuns dizem respeito à convicção de que a pessoa emite odores fétidos de sua pele, boca, reto ou vagina, de que a pessoa está infestada por insetos na pele ou dentro dela, esdrúxulos parasitas internos, deformações de certas partes do corpo ou órgãos que não funcionam.
ALUCINAÇÕES E DELÍRIOS NOS TRANSTORNOS AFETIVOS
A depressão grave, ou maior, é um transtorno afetivo de características depressivas e de natureza predominantemente biológica. Era, anteriormente, chamada de PMD (Psicose Maníaco Depressiva), tipo ou fase depressiva. Atualmente classifica-se como um transtorno do humor, e que tem como subtipos o episódio depressivo (quando único) e o transtorno depressivo recorrente (quando múltiplos).
O que encontramos mais freqüentemente nos distúrbios depressivos são sintomas atrelados predominantemente à afetividade, normalmente sem severo prejuízo da crítica, sintomas estes decorrentes de uma tríade sintomática básica e caracterizada por:
1 - estreitamento do campo vivencial;
2 - inibição psíquica e;
3 - sofrimento moral.
Entretanto, nos casos mais graves há a classificação de depressão maior com sintomatologia psicótica, quando então temos delírios e alucinações, confusão ou outros sintomas francamente psicóticos. Apesar da exuberância de tais sintomas, devemos ter sempre o cuidado em considerar tais fenômenos psicóticos (neste caso da depressão) como sendo de natureza secundária ao humor e não primária como nas esquizofrenias. Como o nome diz, são sintomas e não uma doença psicótica. Em graus mais severos, a depressão maior pode resultar num quadro francamente autista, exuberantemente delirante ou mesmo alucinatório, porém, tais sintomas serão sempre de natureza secundária à própria depressão.
Embora o juízo crítico possa estar conservado nos pacientes deprimidos, suas vivências são suportadas com grande sofrimento e com perspectivas tão pessimistas que a interpretação da realidade assume caráter alterado: vai desde idéias falseadas, passando por idéias supervalorizadas, até o delírio humor-congruente franco. Por não se tratar de um fenômeno de natureza primária, mas sim secundário ao afeto depressivo, alguns autores chamam esses delírios humor-congruentes de idéias deliróides .
O tema dos delírios nos pacientes deprimidos é, de acordo com a idéia de humor-congruência (compatível com o humor) de ruína, de pecado, de podridão ou qualquer outro tema auto-pejorativo. O mesmo fenômeno pode aparecer nos casos de euforia, ou seja, nas fases de euforia do transtorno afetivo bipolar (antigo PMD). Neste caso a temática delirada será de grandeza, de messianismo, de super-poderes ou coisas que enaltecem delirantemente o ego do paciente.
ALUCINAÇÕES E DELÍRIOS NA ALUCINOSE ORGÂNICA
O termo alucinose designa uma síndrome cerebral orgânica na qual as alucinações, em uma ou mais modalidades sensitivas, constituem a anomalia psicológica predominante e às vezes única. Nestes casos os delírios são raridade.
As três características adicionais mais importantes para o diagnóstico para a alucinose orgânica são:
1- falta de prejuízo da consciência,
2- ausência de sinais sugestivos de uma psicose e,
3- atividade alucinatória constante e recorrente.
Na clínica, o termo alucinose encontra-se freqüentemente associado ao alcoolismo, chamando-se este estado de alucinose alcoólica. Trata-se de uma espécie de variante da síndrome de abstinência, mas que aparece nos alcoolistas independentemente da privação do álcool.
A alucinose é também decorrente de estados tóxico proporcionados por diversas drogas, como por exemplo a cocaína, o LSD, brometos, maconha, antiparkinsonianos. Além das drogas, reconhece-se o potencial psicotizante de estados infecciosos (pneumonias, etc.), metabólicos (uremias, diabetes, etc.) e traumáticos e lesionais (traumatismos cranianaos, tumores), ou ainda por foco irritativo dos lobos temporais e occipital, sempre porém, de origem extra-psíquica.
ALUCINAÇÕES E DELÍRIOS NA PSICOSE REATIVA
A chamada psicose reativa breve se caracteriza pelo aparecimento abrupto dos sintomas psicóticos sem a existência de sintomas pré-mórbidos e, habitualmente, seguindo-se à um estressor psicossocial. Os sinais e sintomas clínicos são similares àqueles vistos em outros distúrbios psicóticos, como na esquizofrenia e nos transtornos afetivos com sintomas psicóticos. O prognóstico é bom e a persistência de sintomas residuais não ocorre. Durante o surto observa-se incoerência e acentuado afrouxamento das associações, delírios, alucinações e comportamento catatônico ou desorganizado. Há componentes afetivos com mudanças bruscas de um afeto para outro, perplexidade e confusão.
A Organização Mundial de Saúde, através da Classificação Internacional de Doenças (CID), recomenda que esta categoria de psicose deve ser restringida ao pequeno grupo de afecções psicóticas, em grande parte ou totalmente atribuídas a uma experiência existencial recente. Deve ser entendida como uma alteração psicótica na qual os fatores ambientais tem a maior influência etiológica.
Trata-se de reações cuja natureza não é só determinada pela situação psicotraumática, mas também pelas predisposições da personalidade. A maioria das reações psíquicas mórbidas desenvolve-se em função de uma perturbação de caráter que predispõe a elas. Tal perturbação será fruto de um desenvolvimento psicorreativo anormal.
O desenvolvimento da psicose reativa pode satisfazer a necessidade do paciente em representar, simbolicamente, a si e aos outros através da natureza interna de suas contradições, angústias e paixões, numa espécie de falência aguda de sua capacidade de adaptação a uma situação sofrível.
Deve haver na psicose reativa breve, de uma maneira ou outra, um certo lucro subjetivo na medida em que o paciente vive à margem da realidade traumática e insuportável; transfere seu próprio fracasso para um delírio persecutório, recolhe-se da realidade numa postura autística, nega a existência num estado amnésico e assim por diante. Pode ser de grande alívio a transferência da tonalidade afetiva de um objeto para outro, ou de um complexo de idéias para um outro complexo secundário psiquicamente anárquico, onde as coisas se encaixam numa lógica doentia e fantástica.
Causas
Por definição, de acordo com Kaplan, um estressor vivencial significativo constitui um fator etiológico para este distúrbio, entretanto, melhor seria pensar nestes fatores estressantes mais como desencadeantes do surto psicótico agudo. Portanto, a patologia terá bases tanto biológicas quanto psicológicas. Devem ser enfatizados os mecanismos de relacionamento inadequados e a possibilidade de ganho emocional primário ou secundário com a eclosão do surto agudo. Há hipóteses que a psicose representaria um mecanismo de defesa a um estressor específico.
Sintomas
A característica essencial deste distúrbio é o início súbito dos sintomas psicóticos que persistem por um tempo inferior a um mês, com eventual retorno ao nível pré-mórbido de funcionamento. Os sinais e sintomas clínicos são similares àqueles vistos em outros estados psicóticos, tais como na Esquizofrenia e nos Transtornos Afetivos com Sintomas Psicóticos.
O comportamento pode ser bizarro, com posturas peculiares, trejeitos esquisitos, gritos ou mutismo completo. Freqüentemente há significativa desorientação, confusão e distúrbios de memória. Alucinações transitórias, delírios e confabulações podem estar presentes. O quadro é mais freqüente na adolescência e idade adulta jovem.
São freqüentes, também, as modificações rápidas de um afeto intenso para outro, a perplexidade e regressão com atitudes pueris. O comportamento catatônico ou desorganizado é comum e isso pode confundir com os casos de simulação, Síndrome de Ganser ou mesmo histeria.
Curso e Prognóstico
Não existem sintomas prodrômicos anteriores ao estressor desencadeante, embora possam existir traços de personalidade sugestivos de algum distúrbio prévio. O aparecimento da sintomatologia segue o estressor em poucas horas, não duram mais de um mês e a depressão posterior é freqüente.
ASPECTOS DE BOM PROGNÓSTICO
Boa adaptação emocional pré-mórbida (antes do surto)
Poucos traços Esquizóides de personalidade pré-mórbidos
Grave estressor emocional precipitante
Aparecimento agudo e repentino dos sintomas
Sintomas afetivos presentes (depressão, normalmente)
Confusão e perplexidade durante a crise
Pouco empobrecimento afetivo
Curta duração dos sintomas
Ausência de parentes esquizofrênicos
É muito difícil a diferenciação entre a psicose reativa breve e a depressão maior com sintomas psicóticos. Para tal distinção é fundamental a verificação minuciosa da personalidade pré-mórbida e suas associações com traços depressivos ou esquizóides. A abordagem antidepressiva medicamentosa consegue resolver grande número de casos, o que nos faz suspeitar do evidente envolvimento afetivo em tais transtornos, ainda que não tenha havido nenhuma manifestação prévia de depressão com nítidas características psicóticas. Teoricamente isso é bem possível, já que a eclosão da psicose posterior à agressão emocional pode significar uma falência adaptativa às circunstâncias vivenciais, atitude perfeitamente compatível com a dinâmica da depressão.

Imagem: "Delirium Tremens", de Lukáš Kándl

AUTISMO

Autismo e Memória
Existe alguma teoria que explique a memória fantástica que alguns autistas exibem?
Ataide Carlos Ribeiro do Nascimento, Médico Psiquiatra, Joinville (SC).

Os autistas realmente apresentam, nao somente uma memoria surpreendente, mas tambem outras habilidades extraordinarias que nao sao exibidas pela maioria das pessoas, incluindo calculo matematico, habilidades artisticas e musicais.
Com relacao a sua memoria, eles sao capazes de se lembrar e responder prontamente, por exemplo, que dia da semana foi 4 de abril de 1958. Eles tambem podem se lebrar de datas de nascimento e morte de amigos ou de pessoas publicas como de presidentes, de suas familias. Costumam tambem se lembrar de pessoas que nao viram ha' mais de 20-30 anos.
A razao pela qual alguns individuos autistas apresentam estas habilidades ainda e' desconhecida. E' possivel pensar em uma compensacao de regioes cerebrais especializadas dada a deficiencia de outras. Existem muitas teorias, mas nenhuma evidencia sustenta qualquer uma delas. Dr. Rimland do Center for the Study of Autism, nos EUA, especula que estes individuos "têm uma inacreditavel habilidade de concentracao e podem focalizar completamente a sua atencao em uma area especifica de interesse".
Silvia Helena Cardoso, PhD, Psicobióloga, Campinas (SP).

A memoria fotografica tem um bom exemplo em alguns portadores de autismo infantil, que apresentam uma fantastica memoria fotografica. Parece ser fruto de hiper-desenvolvimento de determinadas regioes cerebrais em detrimento de outras que ficam bastante comprometidas. Este desequilibrio parece mesmo ser uma anomaliag ainda que tal desenvolvimento seja desejavel. A dominancia cerebral - estudos sobre mancinismo referendam esta dominancia cerebral e consequente aumento de sinapses.
Prof. Dr Luis Carlos calil Responsavel pela disciplina de Psiquiatria Clínica da Faculdade de Medicina do Triangulo Mineiro - Uberaba MG

Significado dos Sonhos

Significado dos Sonhos

A função dos sonhos ainda permanece bastante desconhecida, embora alguns pesquisadores tenham proposto várias teorias baseadas em achados neurobiológicos e comportamentais sobre o conteúdo dos sonhos.
Conteúdo dos Sonhos
Muitos sonhos não são prazerosos. Calvin Hall (7) catalogou mais de 10.000 sonhos de pessoas normais e encontrou que:
64% - eram associados com tristeza, apreensão ou raiva;
18% - eram alegres e excitantes;
1% - eram associados com envolvimento sexual;
2 (dois)- eram atos hostis contra o sonhador, tais como assassinato, ataque, ou denúncia.
Sonhos Bizarros
Crick and Mitchison propuseram que a função do sonho é eliminar certas formas indesejáveis de interação entre células no córtex cerebral que pudessem ser danosas ao cérebro (5). Eles sugeriram que os sonhos pudessem ser um mecanismo de desaprendizagem ou esquecimento, onde, nesta situação, as associações são enfraquecidas. "Nós sonhamos para esquecer", escreveram os autores, isto é, nós sonhamos para reduzir a fantasia e a obssessão.
Esta teoria prediz que falhas na habilidade em processar o sono REM, podem causar fantasias, alucinação e obssessão. Eles também acreditam que o cérebro necessita se livrar de informações processadas durante o estado de vigília, e os sonhos seriam um canal de eliminação destas informações para o ajuste do cérebro. Os responsáveis pela busca deste equílibrio, seriam estruturas especiais do cérebro.
Em estudos com simulação neural em redes de computadores, uma avançada tecnologia em neurociências computacionais, que é acreditada ser operada similarmente no cérebro, os autores demonstraram que as redes se tornam carregadas quando se tenta armazenar nelas, um número excessivo de informações. Neste caso, a rede produz associações bizarras (podendo-se comparar com as "fantasias" dos sonhos), e ela tende a recorrer ao mesmo resultado, quaisquer que sejam os dados entrados (obssessão), e pode responder a sinais de entradas inapropriados os quais normalmente não eliciam respostas (alucinações). Esta teoria prediz que falhas na habilidade em processar o sono REM, podem causar fantasias, alucinação e obssessão (9).
Sonhos Emocionais
Sonhos emocionais podem refletir a personalidade do sonhador, bem como a sua situação, no estado de alerta. Eles podem expressar preocupações, desejos, insegurança, idéias grandiosas, ciúmes, amor, medos e outros sentimentos ou sensações, revelando por meio disto, diferentes aspectos do estado mental das pessoas. Evidências desta observação foram demonstradas por Rosalind Cartwright (9), em um estudo que envolvia sujeitos separados e divorciados. Estes indivíduos eram acordados durante o sono REM para reportarem seus sonhos. Em 70 indivíduos estudados, o conteúdo do sonho estava fortemente relacionado com a maneira pela qual aquela pessoa estava lidando com a crise em questão (o divórcio).
Crick and Mitchison (5) sugerem que a prevalência da emocionalidade nos sonhos pode ser característica somente de sonhos que são lembrados, dado que os indivíduos são acordados pelos sonhos devido a ansiedade associada com eles. Nestes casos, o processo de aprendizagem e de esquecimento se reverte para uma aprendizagem positiva e então a sua recorrência pode ser explicada. Esta possibilidade pôde ser testada observando que os sonhos registrados de pessoas "atificialmente" acordadas durante um experimento mostrava uma diminuição na proporção de temas relacionados à ansiedade.
Sonhos Com Atos Anti-Sociais e Com Pessoas Mortas
No estado de vigília, o córtex analisa com precisão os impulsos que chegam dos vários órgãos receptores do sistema sensorial, chegando a uma decisão e gerando uma resposta integrada como, por exemplo, o movimento do braço (ação do órgão efetor) pegando uma faca. O córtex se manifesta também na inibição deliberada de ação (por exemplo, arremessar a faca em direção a uma pessoa). Para Kleitman (11), no processo do sonho, o mesmo tipo de atividade cortical se processa em um nível inferior de desempenho. A análise dos fenômenos é falha, a memória traz confusamente o passado ao presente; o sonhador reconhece uma pessoa falecida, mas aceita a sua presença sem surpresas. Consequentemente, a integração da resposta cortical é incompleta e o sonhador é muitas vezes levado a cometer imaginariamente atos anti-sociais. Felizmente, os impulsos do córtex adormecido morrem a caminho dos órgãos efetores e nada de mal acontece. Depois de um despertar súbito, mesmo as pessoas normais podem ficar confusas e agir de forma desordenada durante algum tempo (11).
Movimentos Corporais Durante os Sonhos
Alguns dos movimentos corporais estão relacionados com o conteúdo do sonho. Edward Wolpert, da Universidade de Chicago, prendeu eletrodos aos membros de sujeitos adormecidos e registrou os potenciais elétricos de ação (força exercida em uma partícula eletricamente carregada) dos músculos. O registro de um de seus sujeitos mostrava uma sequência de atividade motora primeiro na mão direita, depois na esquerda e finalmente nas pernas. Acordado imediatamente depois, o sujeito relatou que sonhara ter levantado um balde com sua mão direita, transferindo-o para a mão esquerda e então começado a andar. Extendendo-se ao sonambulismo, ele especula que este distúrbio pode ser uma expressão extrema de tal defluxo motor para as extremidades.
A Natureza Evolutiva dos Sonhos
Jonathan Winson (16) sugere que os sonhos refletem uma estratégia individual para a sobrevivência. Para ele, a natureza do sonho REM sustenta um argumento evolutivo. Durante o dia, os animais processam informação em seus cérebros para poderem andar e movimentar os olhos, no caso de se alimentarem, se defenderem contra predadores, etc. Durante a noite, ao processar novamente aquelas informações durante o sono REM, tal reprocessamento não seria facilmente separado da locomoção, pois isto demandaria uma grande revisão da circuitaria cerebral. Então, para manter o sono, a locomoção deve ser suprimida inibindo neurônios motores (aqueles que promovem a locomoção). Os movimentos oculares, por sua vez, não necessitam ser suprimidos porque sua atividade não atrapalha o sono.
Outras teorias sustentam que os sonhos podem refletir um mecanismo de processamento da memória herdado de espécies inferiores, no qual a informação importante para a sobrevivência reprocessada durante o sono REM é necessariamente sensorial (9). De acordo com nossos ancestrais mamíferos, os sonhos em humanos são sensoriais, principalmente visuais. O cego congênito tem sonhos auditivos, e aqueles que perdem esse sentido, gradualmente perdem a habilidade de sonhar visualmente.

Sonhar

Nós precisamos sonhar?
Ainda não se sabe se precisamos sonhar ou não, mas é evidente que o corpo requer sono REM. Kelly (10) argumenta que a privação de REM não causa psicoses, comportamentos bizarros, ansiedade ou irritabilidade, como foi afirmado por muitos pesquisadores, desde que ele observou que sujeitos privados do sono REM por um período de 16 dias não mostraram sinais de distúrbios patológicos sérios.
De acordo com o pesquisador, o efeito mais importante da privação de REM, é uma mudança dramática em padrões subsequentes quando o sujeito é permitido dormir sem interrupção. Um encurtamento do sono REM por várias noites, é seguido por início prematuro, longa duração e frequência aumentada de períodos REM (10). Quanto maior a privação, maior e mais amplo será o efeito REM. A existência de um mecanismo compensatório ativo para a recuperação de sono REM perdido ou suprimido sugere que o sono REM é fisiologicamente necessário.
Webb (1985), encontrou que perda de mais que 48 horas de sono tiveram pouco efeito sobre a precisão dos atos e tarefas de processamento cognitivo, enquanto que medidas de atenção foram afetadas. A performance pode ser devido mais a fatores motivacionais do que componentes cognitivos.
Lugaresi et al (1986) reportaram um o caso de um homem que, gradualmente, começou a dormir menos e menos; ele apresentava inabilidade em se concentrar, falhas intelectuais, desorientação. Quando ele morreu, seu cérebro foi verificado e foi encontrado que ele tinha uma condição herdada que causou uma degeneração do tálamo.

terça-feira, 30 de março de 2010

Loucura

Civilização e Loucura
Paulo Dalgalarrondo, MD, PhD
Em finlandez
A idéia que insanidade é rara entre os povos primitivos e que ela tende a aumentar em proporção ao processo civilizatório surgiu pela primeira vez no século XIX. Psiquiatras importantes daquela época defenderam a idéia que existiria uma íntima relação entre civilização e doença mental. A idéia do "bom selvagem", proposta pelo filósofo e reformador francês Russeau, ainda era forte.
Por exemplo, o naturalista Alexandre von Humboldt, em sua viagem às regiões tropicais da América, teria ficado surpreso com a ausência de doentes mentais entre os selvagens. Em outro exemplo, o médico encarregado da remoção dos índios Cherokee às reservas índias, tendo observado mais de 20 mil índios, afirmou nunca tinha visto ou mesmo ouvido falar de um caso de insanidade entre os Cherokees. Acreditava-se também que a insanidade era rara entre os africanos e chineses e que as pessoas nativas no Pacífico Sul também eram isentas de insanidade. O Capitão Wilkes, o comandante da "Expedição Exploradora dos Estados Unidos", relatou que durante todas as suas viagens aos mares do sul jamais havia visto qualquer caso de insanidade entre as pessoas daquela região.
Doença Mental em Nativos
Contudo, a idéia de ausência completa de doença mental entre os primitivos não seria mantida. Ao longo do século XIX e paralelamente à expansão do colonialismo inglês, francês e alemão, os alienistas das colônias começaram a perceber melhor os contrastes entre pacientes vistos lá e aqueles visto na Europa. Eles começaram a descobrir doenças mentais que eram restritas a povos primitivas, tais como o amok e o latah, entre os nativos de Java; koro, entre os chineses em Java; o myriath, na Sibéria, piblokto entre os esquimós, etc. Assim, nasceu uma nova abordagem, a assim chamada "psiquiatria cultural do exótico", a qual evoluiu até o presente conceito de síndrome delimitada pela cultura ( "culture-delimited syndrome").
Na mesma época, começava a crescer também o interesse de alguns psiquiatras europeus em demonstrar que as doenças clássicas descritas por eles, tais como a esquizofrenia, eram universais e não limitadas geograficamente à Europa. Pela primeira vez, o pensamento psiquiátrico buscava fora do seu berço de nascimento uma prova para o valor universal de suas categorias de doença mental. O grande psiquiatra Emil Kraepelin foi um dos primeiros a fazer extensas viagens ao Oriente e examinar pacientes psicóticos entre povos primitivos, tais como na ilha de Java.
Finalmente, durante o século da expansão dos grandes impérios, passou a predominar a idéia que a civilização tinha um efeito nocivo sobre a saúde mental do assim chamado "primitivo". A introdução do álcool nas culturas nativas foi considerado como um dos principais elementos na destruição de tribos indígenas americanas.
E por que?
Racismo e o Cérebro do Nativo
Desde a metade do século XIX, as teorias casuais sobre a doença mental oscilavam entre as visões orgânicas e as psicopatológicas. As idéias orgânicas predominavam, marcadas principalmente, pela teoria da degeneração do cérebro. Em consonância com a "mitologia do cérebro" da época, chegou-se à idéia de que o cérebro do nativo era mais primitivo que o do europeu e que ele se assemelhava ao cérebro de uma criança, ou, ainda, que eles manifestavam um inferioridade cerebral inata, inerente à raça, o que os tornava iguais aos mais inferiores degenerados da Europa.
Além da idéia de que pessoas nativas nas colônias européias tinham cérebros mais primitivos que os europeus, a tese que negros tinham um cérebro anatomicamente mais primitivo que os brancos cresceu em torno do século. Pensava-se que os negros tinham o cérebro com lobos frontais diminuídos os quais poderia explicar o fato de ter "faculdades mentais inferiores como cheiro, habilidade manual, sensação corporal e melodia", enquanto que os brancos, por outro lado, tinham desenvolvido faculdades mentais mais elevadas, como o auto-controle, ambição, senso ético e estético e razão".
O crescimento da associação entre a psiquiatria orgânica e o racismo no colonialismo europeu e nas ideologias discriminatórias das classes americanas dominantes transformou o selvagem e o negro, de donos de personalidade simples e exóticas, em portadores de um cérebro primitivo e grosseiro. Surpreendentemente, este viés no pensamento psiquiátrico, mesmo sendo grosseiramente racista e etnocêntrico, foi defendido até poucas décadas atrás, principalmente nas idéias de psiquiatras trabalhando nas colônias inglesas e francesas da África.
A idéias de que os indígenas nativos eram especialmente vulneráveis aos efeitos da civilização - dado que o seu cérebro mais primitivo não resistiria aos efeitos prejudiciais de um tipo mais desenvolvido de sociedade - predominou entre os alienistas norte e sul americanos. Nos Estados Unidos, muitos autores tentaram mostrar que o suposto aumento da doença mental entre negros após a abolição da escravidão tinha a ver com a falta de preparação da vida dos afroamericanos em uma sociedade "livre e civilizada". Mais uma vez, não era a dinâmica histórica ou social que produzia relações desiguais entre homens e certos grupos sociais jogados em condições de vida sub-humanas, mas sim a "fraqueza cerebral constitucional" destes grupos que os tornava presa fácil da a miséria e da insanidade.
O neurologista e psiquiatra Harry R. Hummer, o superintendente do único sanatório exclusivo para índios americanos nos EUA, em Dakota do Sul, fez o primeiro estudo sistemático sobre doença mental entre índios americanos. Para ele, ainda que, geralmente os sintomas e tipos de distúrbios eram similares entre índios e brancos, entre os índios havia casos predominantes de descontrole, com extrema agressividade e homicídios.
Deste modo, gradualmente, o pensamento psiquiátrico cultural consolidou a idéia de que cada vez que o nativo é confrontado com sofrimento, perda e frustração, sua tendência imediata é reagir de uma forma infantil, histérica e impulsiva, ao invés de desenvolver sintomas depressivos mais profundos. Talvez a idéia predominante na psicopatologia cultural desde a virada do século seja que os sintomas dos nativos são menos diferenciados e elaborados, mais rudes, confusos, desorganizados e pobres em conteúdo.
Curiosamente, os autores em geral não fazem qualquer referência às suas limitações linguísticas e à dificuldade de acesso aos valores e costumes de pessoas estudadas. A maioria dos pesquisadores neste período quase sempre não dominava a linguagem dos pacientes estudados e sequer conhecia suficientemente seus valores culturais e símbolos. A psiquiatria do colonizador foi baseada em ver, e não ouvir, produzindo então, uma psicopatologia do comportamento externo e não do discurso do paciente e de seu sofrimento subjetivo. Além disto, mesmo sabendo que, devido às precárias condições de atenção psiquiátrica e escassez de leitos e médicos, somente os casos mais sérios, predominantemente a agressividade, recebiam cuidados psiquiátricos. O alienista branco se restringia às primeiras impressões aparentes, e, assim, generalizava a idéia que a insanidade em nativos era fundamentalmente mais impulsiva e agressiva do que nos cristãos brancos.
Conclusão
Não é absurdo pensar que o "louco selvagem" funcionaria como uma mancha de Rorschach na qual o imaginário ocidental "projeta" sem pudor as suas fantasias, seus temores, seu racismo e preconceitos etnocêntricos. Os inícios da etnopsiquiatria revelam, frequentemente, apenas uma sombra deformada do homem exótico e seu adoecimento psíquico. A lente que o branco civilizado utiliza deforma profundamente seu objeto, tanto por necessidades e interesses políticos e ideológicos, como pela pregnância de noções étnicas profundamente arraigadas no pensamento ocidental.

Hidrocefalia

Causas da Hidrocefalia
A Hidrocefalia é causada pela inabilidade de drenagem do líquor na corrente sanguínea. Existem muitas razões pelas quais isto pode acontecer:
Tumor cerebral - Tumores do cérebro causam inchaço dos tecidos circundantes, resultando em pobre drenagem do líquor.
Meningite - Esta é uma infecção das membranas que recobrem o cérebro. A inflamação e debridação desta infecção pode bloquear as vias de drenagem causando hidrocefalia.
Hidrocefalia Congênita- A hidrocelia, neste caso, está presente no nascimento mas isto não significa que ela seja hereditária.
Prematuridade - Bebês nascidos prematuramente são mais vulneráveis ao desenvolvimento de hidrocefalia do que aqueles nascidos a termo, desde que muitas partes do corpo ainda não estão amadurecidas. A atividade da área que está logo abaixo da linha dos ventrículos no cérebro apresenta um rico suprimento sanguíneo. Seus vasos sanguíneos podem ser facilmente rompidos se o bebê sofrer uma mudança na pressão sanguínea ou na quantidade de fluído no sistema.

Tipos de Hidrocefalia:
Hidrocefalia Comunicante - Obstrução do fluxo do líquor no espaço subaracnóide após sair do quarto ventrículo. As causas incluem infecções como meningite (a fibrose obstrui o espaço subaracnóide e o fluxo do líquor), bem como falha de absorção, hemorragia subaracnóide ou bloqueio do sangue através de aneurismas.
Hidrocefalia Não-Comunicante- Obstrução do fluxo do líquor no sistema ventricular ou na parte externa do foramen. Geralmente, os sítios de estreitamento são obstruídos. Exemplos incluem cistos colóides os quais obstruem o terceiro ventrículo e tumores do tronco encefálico os quais comprimem o canal entre o terceiro ventrículo e o quarto ventrículo (Aqueduto cerebral, ou de Sylvius).
Hidrocefalia Ex-Vacuo: Algumas vezes o cérebro se retrai em tamanho (como no caso da Doença de Alzheimer), e, como resultado, os ventrículos se alargarão para compensar. Ainda que os ventrículos estejam dilatados, eles não estão sob pressão.

Tratamento
Derivação (Shunts) - O tratamento mais comum para a hidrocefalia é a chamada derivação - um tubo plástico inserido inteiramente dentro da pele que cria uma nova via para o líquor, do cérebro a outra parte do corpo. A derivação controla a pressão por drenar o excesso de líquor, prevenindo então, o agravamento da condição.
Entretanto, a derivação não cura a hidrocefalia e o dano ao tecido cerebral permanece. Este procedimento não é perfeito, pode ser mal-funcionante, pode coagular, causar infecção e mesmo se quebrar.
Ventriculostomia - Ventriculoscópios permitem que novas vias de líquor possam ser criadas no cérebro, ou as antigas possam ser re-abertas.

Veja:
Ventrículos Cerebrais

Autor: Dra. Silvia Helena Cardoso, Psicobióloga, com mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles. É professora convidada e pesquisadora associada do NIB/UNICAMP , editora-chefe e idealizadora da Revista "Cérebro & Mente".

Hipnose

Hipnose: Dos Mitos à Realidade
Vladimir Bernik, MD
A hipnose médica (ou hipnoterapia) continua sendo um dos métodos terapêuticos mais controvertidos em Psiquiatria. Ela foi recebida com reservas, depois que recebeu críticas indevidas de Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Mas, voltou com força redobrada após a Segunda Guerra Mundial, tendo sido apoiada como um método válido pelas principais entidades médicas internacionais.
No Brasil, a hipnose passou também por um processo de séria descrença, por ter sido muitas vezes utilizada em palco, por pessoas não qualificadas medicamente, e tendo até mesmo causado prejuízos para as "cobaias" humanas assim utilizadas. Felizmente, seu uso fora do ambiente médico foi proibido por um decreto presidencial na década de 60.
Atualmente, a hipnose é reconhecida como um tipo de tratamento adequado para certos quadros psiquiatricos, e até mesmo como um método de valor para aumentar a resistência imunológica de pacientes, aumentando o nível de células brancas (leucócitos) responsáveis pela defesa do nosso organismo contra as doenças. Por esse motivo, tem sido muito utilizada na terapia da AIDS, pois parece ser o método que mais rapidamente altera a psicoimunologia dos pacientes (alteração do sistema imune através da psique).
A hipnose geralmente não é um tratamento em si. Os diferentes métodos terapêuticos usados pela psiquiatria podem ser realizados melhor e mais rapidamente com a sua ajuda. Uma de suas vantagens é reduzir o tempo de tratamento de um distúrbio mental.
É um dos tratamentos utilizados para:
tirar alguns sintomas de certas doenças mentais, como ansiedade;
reduzir o estresse; tratar traumas psicológicos quando sua causa é pouco relevante;
tratar medos (fobias), como medo do escuro; auxiliar o tratamento de alívio de dores crônicas, como na artrite, na dor provocada por tumores, etc.
A hipnose também é muito utilizada no tratamento de doenças psicossomáticas (por exemplo, úlceras de fundo nervoso), sendo um dos métodos que obtem resultados mais breves e eficientes.
Uma grande vantagem na hipnose é que, ao contrário do que a ficção muitas vezes retrata, ela não tem poder para alterar os valores éticos e morais do paciente. É um dos tratamentos mais sérios em Psiquiatria, e o seu código de ética internacional é um dos mais rigorosos da Medicina. É isenta de perigo, sendo totalmente segura quando controlada pelo médico.
O que é a hipnose ?
A hipnose utiliza a técnica de indução do transe, que é um estado de relaxamento semi-consciente, mas com manutenção do contato sensorial do paciente com o ambiente.
O transe é induzido de modo gradual e por etapas, através da fadiga sensorial, que geralmente é provocada pelo terapeuta usando a voz, de forma calma, monótona, rítmica e persistente. Quando o transe se instala, a sugestibilidade do paciente é aumentada; o que requer um elevado nível ético do médico. A hipnose leva então à várias alterações da percepção sensorial, das funções intelectuais superiores, exacerbação da memória (hiperamnésia), da atenção e das funções motoras. Estabelece-se um estado de alteração de estado da consciência, um tipo de estado que simula o sono, mas não o é (a pessoa não "dorme" na hipnose): o eletroencefalograma (EEG) do paciente sob hipnose é de vigília, e não de sono.
Não se conhece ainda completamente como a hipnose altera as funções cerebrais. Uma das teorias atuais é que ela afetaria os mecanismos da atenção, em uma parte do cérebro chamada substância reticular ascendente (SRA), localizada na sua parte mais basal (tronco cerebral). Essa área, que também tem muitas funções relacionadas ao sono, ao estado de alerta, e à percepcão sensorial, "bombardeia" o cérebro continuamente com estímulos provenientes dos órgãos dos sentidos, provocando excitação geral. A inibição da SRA leva aos estados de sonolência e "desligamento" sensorial.
E a sensibilidade à hipnose, é geral ? Sim. Cerca de 90% das pessoas é hipnotizável pelo menos a nível das necessidades de terapêutica médica; alguns podem não sê-lo para etapas mais profundas, como de pesquisa pura. Esses 90% têm graus diferentes de sensibilidade: todos eles podem ser colocados sob hipnose, mas isso depende do médico, que tem que realizar um esforço maior ou menor em seu trabalho. E os outros 10% ? Bem, como a hipnose depende do estímulo da palavra (débil, rítmica, monótona e persistente), só não entrarão na hipnose os surdos e os totalmente inaptos a compreender a essência mínima do que lhes esteja sendo dito.
Hipnose na Psiquiatria
Entidades como Associação Médica Britânica, Associação Médica Americana, Associação Médica Canadense e Associação Americana de Psiquiatria reconheceram a força da hipnose como modo de diagnóstico e tratamento de problemas específicos em Psiquiatria. Assim, pesquisadores e serviços universitários organizaram-se no estudo mais profundo de seus fenômenos e na utilidade a ser dada às suas técnicas peculiares de diagnóstico e de terapêutica. Fundou-se uma sociedade internacional, que edita até hoje uma revista de elevado padrão científico visando à difusão de conhecimentos. Nos diferentes países, surgiram entidades nacionais, filiando-se à Sociedade Internacional. Para o estudioso da hipnose, a cada dia e a cada descoberta, ela é um mundo novo que se abre, no sentido de somar novos elementos à neurociência, da pesquisa ao diagnóstico e ao tratamento.
No entanto, ainda assim não ganhou a total credibilidade dos médicos, uma vez que é pouco disseminado o embasamento neurocientífico da hipnose.
Indicações da Hipnose
A hipnose tem muitas indicações específicas em Psicologia, Psiquiatria e em Medicina Geral.
Tirar a dor é uma das suas indicações básicas. Na verdade, como não se pode mentir ao paciente sob hipnose, a sugestão não é a de que a dor deixou de existir, mas que ela se vai transformando progressivamente numa sensação tolerável de formigamento ou de calor.
Outra área de aplicação da hipnose médica, com bons resultados, ocorre no controle das doenças psicossomáticas, tais como a asma, o colon irritável, e os problemas psicodermatológicos (como eczemas).
O controle dos impulsos é outra excelente área de atuação para a hipnoterapia. Ela se revelou de grande valor para o tratamento de distúrbios das condutas dependentes do controle de impulsos, tais como:
as alterações de comportamento alimentar (obesidade, anorexia e bulimia);
os impulsos inibidos ou exacerbados da sexualidade e a correção de suas disfunções em todas as faixas etárias;
o controle do impulso do jogo;
as diferentes dependências químicas, do alcool ao "crack", passando pelo fumo.
A hipnose também tem valor quando usada para complementar outras formas de psicoterapia, tais como no tratamento dos medos fóbicos, no domínio sobre os instantes de desencadeamento da doença do pânico, no controle da ansiedade e dos componentes emocionais da depressão, no controle do impulso suicida e reativação dos valores da vida, etc. Em muitos desses casos, ela é acompanhada também do uso de medicamentos apropriados (como antidepressivos).
Hipnose e Pseudo-Ciência
A aproximação da "New Age" e a incrível capacidade do paciente apresentar fenômenos de hipermnésia (exacerbação da memória) levou a uma maior exploração das técnicas de regressão às fases infantis e de adolescência, para instigar terapeutas pouco conscientes a buscar regressões fantásticas a outras dimensões, vida fetal e até...outras vidas, jogando esta séria técnica médica ao limbo do esoterismo. Pessoas até vivem e "revivem" outras vidas. Esqueceram-se os pseudo-terapeutas, que, entre as incríveis propriedades desta técnica, existe a deliriogênica, capaz de transformar fantasias latentes do paciente e bem-elaborados delírios de autoreferência.
O único perigo da hipnose, de fato, é o seu mau uso: querer "navegar" por outras vidas, formar delírios e neles acreditar. Tornar a difícil vida de hoje em um inferno pior ou, no mínimo, ingenuamente mergulhar numa fantasia irreal, sem chance de retorno. Abrir para si mesmo, com a ajuda de um profissional aético, as portas da percepção de uma psicose de difícil controle.

Animais

Os Animais Pensam?
Renato M.E. Sabbatini, PhD
A imagem de um chimpanzé à esquerda nos lembra, com uma semelhança desconcertante, a famosa escultura do "homem que pensa" de Auguste Rodin (a qual, por sinal, enfeita o logotipo da revista Cérebro & Mente). Ela coloca uma questão muito forte aos estudiosos do comportamento animal: será que os animais possuem uma mente? Eles são capazes de ter sentimentos e pensamento? É verdade que alguns dos comportamentos dos animais indicam que eles têm uma espécie de "modelo de mente" interior, ou seja, eles parecem ser guiados por um entendimento de que seus co-específicos (ou mesmo seres humanos) possuem motivos e estratégias para se comportar como o fazem?

As respostas a tudo isso têm tremendas implicações, que vão da neurofilosofia à zootecnia, do ativismo pelos direitos animais à neurogenética evolutiva.
É claro que não devemos agrupar todas as espécies animais em um só grupo, ao tentarmos responder estas questões. Praticamente ninguém aceitaria a idéia de que as formas mais inferiores de vida, tais como minhocas ou as moscas-de-fruta, sejam capazes de pensar e exibir consciência, planejamento a longo prazo ou raciocínio abstrato, as marcas fundamentais de uma mente. Nem alguém duvidaria de que os primatas antropóides, como gorilas, orangotantos e chimpanzés (estes últimos, recente demonstrados como compartilhando a impressionante porcentage de 98% do seu genoma com os seres humanos) possuam coisas que parecem ser pensamento e cultura. Assim, o Dr. Donald Griffin, Professor Emérito da Universidade Rockefeller e autor de "Animal Thinking", afirma que "a consciência não é uma entidade bem arrumadinha, do tipo tudo-ou-nada. Ela varia com a idade, a cultura, a experiência e o sexo. Se os animais tiverem experiências conscientes, então elas presumivelmente variam amplamente também." (1).
Em um artigo anterior sobre a evolução da inteligência humana (6), eu argumentei que a inteligência não é uma propriedade única aos seres humanos. A inteligência humana parece ser composta de várias funções neurais correlacionadas e que cooperam entre si, muitas das quais também estão presentes em outros primatas, tais como destreza manual, visão colorida estereoscópica altamente sofisticada e precisa, reconhecimento e uso de s~imbolos complexos (coisas abstratas que representam outras), memória de longo prazo, etc., De fato, a visão científica corrente é que existem vários graus de complexidade da inteligência presente em mamíferos, e que nós compartilhamos com eles muitas das características que previamente pensávamos ser exclusivas do ser humano, tal como linguagem simbólica, que se comprovou também ser possível em antropóides. O estudo da evolução da inteligência humana forneceu evidências de que parece haver uma "massa crítica" de neurônios de ordem a conseguir consciência semelhante à dos humanos, linguagem e cognição, mas que estas propriedades da mente parecem estar já presentes em outras espécies com cérebros altamente desenvolvidos, embora em forma mais primitiva ou reduzida.

O problema é que os seres humanos sabem que outros humanos têm mentes iguais às suas, porque nós podemos compartilhar essas experiências entre nós, através da linguagem simbólica. Outros animais são incapazes de comunicar isso diretamente a nós, porque eles não têm linguagem ou introspecção. Entretanto, os estudiosos da comunicação simbólica dos antropóides, tais como os que fizeram experimentos que foram capazes de ensinar orangotantos, gorilas e chimpanzés com a habilidade de usar linguagens artificiais, são rápidos em afirmar que eles têm evidências fortes de que isso é verdade. Experimentos com os chimpanzés Koko e Washoe, e com o gorila Kenzi, demonstraram que eles eram capazes de inventar novas palavras, construir frases abstratas e expressar seus sentimentos através da Linguagem Americana de Sinais (para surdos-mudos) ou linguagens simbólicas baseadas em computadores.
Muitos experimentos inteligentes foram imaginados com o objetivo de provar que os antropóides realmente parecem ter modelos de mente e que são capazes de representações da realidade bastante sofisticadas. Por exemplo, chimpanzés conseguem localizar rapidamente um objeto oculgo em um ambiente complexo, quando é mostrado a eles, através de uma maquete miniaturizada, onde eles estão. Na natureza, sabe-se que os chimpanzés são capazes de elaborar roteiros e estratégias comlicadas com o objetivo de enganar competidores e obter vantagens, mudar de lado ou atraiçoar-se mutuamente. Sabe-se, inclusive, que eles são capazes de mentir e dissimular, uma qualidade que é a quintessência da mente humana, que exige a capacidde de "observar a operação de sua própria mente", e de fazer operações mentais indutivas, dedutivas e abdutivas com base em informação externa. Chimpanzés reconhecem a si próprios em um espelho, por exemplo, uma proeza de que nenhum outro animal é capaz (como é exemplificado por um pássaro que faz seu ninho em meu jardim, e que todas as manhãs nos acordo com suas lutas furiosas contra sua imagem refletida nos vidros das janelas...). Assim, podemos dizer que eles são capazes de auto-percepção!

Os antropóides também são bastante aptos quanto à fabricação de ferramentas e ao seu uso para resolver problemas de forma adaptativa, o que evidencia notáveis habilidades mentais, uma capacidade para invenção e criatividade que anteriormente pensava-se ser uma exclusivade do Homo sapiens. Até mesmo o "campo sagrado" da mais poderosa das operações simbólicas mentais, a aritmética e a matemática, parecem não deter mais uma exclusividade humana (4). Experimentos com macacos rhesus feitos por Herbert Terrace e Elizabeth Brannon demonstraram que os macacos conseguem entender relações ordinais entre os números de 1 a 9.
Inteligencia, communicação, aprendizado por imitação e consciência são necessários para outra característica única de nossa espécie, a transmissão de conhecimentos culturais. Por exemplo, um grupo de macacos do gênero Macaca, que habitam há séculos a ilha Koshima, no norte do Japão, adquiriram e preservaram por várias gerações o hábito de lavar batatas doces e arroz na água do mar. O isolamento populacional e cultural levam a uma variedade muito maior de comportamentos. Existem muitas evidências para isso em comportamentos alimentares, de exploração de alimentos, caça e compormento social em diferentes populações de chimpanzés na África.

Existem muitas conseqüências para o reconhecimento da existência do que definimos como "pensamento" e "consciência" entre os antropóides e outros animais. O primeiro dele é ético, por natureza. Um grupo de direitos animais da Nova Zelândia iniciou um projeto denominado "Grandes Antropóides", que tem por objetivo atribuir a esses animais o status de "conscientes, sentientes e pensantes", desta forma proibindo o seu uso na experimentação animal, encarceramento compulsório (em zoológicos e circos), e assim por diante.
Na minha opinião, eles estão corretos, até um certo ponto. Embora isso causaria uma grande redução na pesquisa sobre muitas doenças, como hepatite, AIDS e outras, as quais aparecem de forma semelhante em primatas humanos e não humanos, fazer experimentos cruéis e matar animais sensíveis e inteligentes como os chimpanzés é problematico do ponto de vista ético, quanto mais sabemos sobre as nossas diversas similaridades.
Talvez o futuro nos mostre novas maneiras de olhar os cérebros de animais usando técnicas avançadas como o PET e MRI, que nos permita decidir se eles estão usando circuitos cerebrais semelhantes aos nossos para desempenhar funções cerebrais superiores. A capacidade intelectual humana não surgiu do nada. Nós herdamos, com certeza, uma parte considerável do processamento perceptual e cognitivo de nossos predecessores primatas, de forma que não é nem um pouco surpreendente que os nossos primos mais próximos, os antropóides, os tenham também.
Par Saber Mais
1.Wynne, Clive: Do Animals Think? Psychology Today, November 1999.
2.Radford, Tim: Do Animals Think? Guardian Unlimited, December 2002.
3.Think Thank: Do Animals Think? Public Broadcasting System, January 2000.
4.Hauser, Marc D. What Do Animals Think About Numbers? American Scientist. March-April 2000.
5.Cromie, William J. Scientists think that animals think: But what exactly do they think about? Harvard University Gazette
6.Sabbatini, R.M.E.: The Evolution of Human Intelligence. Brain & Mind, 12, 2001.
7.Walker, Stephen. Animal Thought. London, Routledge and Kegan, 1989.
8.Griffin, Donald. Animal Thinking. Cambridge, MA, Harvard University Press,
9.Hauser, Marc. Wild Minds, Henry Holt, 2000.

Memória

Memória e Consciência
Elson de Araújo Montagno, MD, PhD
eamontagno@yahoo.com.br
Foi uma conversa interessantíssima, em lugar incomum, com um interlocutor impressionante: Sir John Eccles, neurocientista australiano detentor do prêmio Nobel de Medicina de 1963. O lugar, a ilha de Mainau, do conde Bernadotte, no Lago Constança fronteira entre Suíça, Alemanha e Áustria. O encontro reunia 22 detentores do Prêmio Nobel de Medicina com jovens cientistas atuando na Europa em 1983.
Ao redor da mesa ouvíamos este sábio referendado com as maiores láureas. Eu o havia instigado com perguntas científicas sobre a mente humana e o cérebro. Sabia de como lidava com aspectos filosóficos derivados da neurociência que ele próprio tanto contribuíra para estabelecer. Era central o interesse de Eccles pelos problemas da comunicação nos níveis altos, os da natureza do ser que tem experiência de si próprio, que detém autoconsciência.
Eccles encerrou o assunto escrevendo duas palavras em meu bloco de anotações, repto para que se perseguisse a pesquisa sobre esses dois temas: memória e consciência. e acenou com prêmios Nobel garantidos para quem elucidasse os mecanismos da memória e da consciência, tal qual ele próprio fez ao elucidar e descrever o funcionamento da sinapse.
A sinapse é uma microscópica fenda altamente especializada da comunicação entre células nervosas, que transmitem impulsos ao longo de suas fibras. Substâncias químicas neurotransmissores, deixam a membrana pré-sináptica da célula levando o impulso de energia-informação. Assim, depositadas neste espaço comum a duas células, as moléculas provocam a excitação da membrana da célula em contacto sináptico com ela.
Uma única célula nervosa pode mandar, através de sinapses, impulsos para até mais de 10 mil outras células, simultaneamente. Por exemplo, ao sair da medula espinhal o impulso para flexionar o dedo tem que chegar ao nervo que vai até o músculo que, ao se contrair, efetua a flexão do dedo. É a sinapse que conecta a célula nervosa da medula com a célula nervosa do nervo que vai até o dedo. A sinapse é uma dentre a miríade de elementos e estruturas existentes entre a consciência de querer mover o dedo e a memória de como fazê-lo, utilizando bilhões de células nervosas e trilhões de sinapses.
Quando Eccles fez as pesquisas que permitiram que entendêssemos a sinapse, ele acreditava que essa elucidação contribuísse substancialmente para a solução do problema mente-cérebro: sistemas neuronais formando e operando continuamente laços dinâmicos interagentes de imensa variabilidade e complexidade, viabilizando a consciência humana. Ele primeiramente trabalhou sob os encantos da sinapse e voltou-se, depois, para os mistérios do cérebro de ligação do sistema nervoso com a consciência.
Leitor atento: pular, da microscópica sinapse para a cosmopolita consciência com sua antológica memória, não é didático. É porém assim que pulam os impulsos bioelétricos dentro da mais extraordinária estrutura jamais conhecida: o cérebro humano. E têm sido assim há muito tempo, memória e consciência; idéias saltando entre nossos muitíssimos neurônios. Ainda que não persigamos o prêmio maior da ciência dos homens, governar a vida em nós, e cuidar das vidas que dependem de nós, é o nosso repto e é o nosso prêmio.
Escrevi outro dia que os seres vivos são como células para o nosso mundo vivo. A consciência e a memória são intangíveis realidades vivas que assombram e impelem a humanidade, e não somente os neurocientistas. Forjamos hoje a consciência planetária que vai permitir que continuemos a viver como espécie. A memória do caminho nos assegura que vamos usar nossas consciências no governo das técnicas que vão permitir nossa sobrevivência. É o verdadeiro governo oculto no mundo. Dobramos nossa vida média e multiplicamos nossa população em muitas vezes neste milênio que se encerra. A consciência e a memória, através do trabalho de sinapses interligando magnificamente as incontáveis células de nosso corpo, geraram a ciência e a tecnologia.
Estabelecemos as prioridades, a política verdadeira, com nossa memória, que aprimora e burila a nossa consciência. Hoje comunitária, societária, amanhã cosmopolita, planetária. Assim mantemos e fazemos evoluir a vida em nosso mundo, deixando para trás a inconsciência predadora, que nos permitiu ascender ao topo da cadeia alimentar. Às expensas de um saque ao futuro, temos nos permitido até agora o aniquilamento de irmãs e irmãos, a extinção de animais, plantas, cascatas e florestas.
A música do trabalho de bilhões de sinapses é o fruto que faz conhecer quando a ação completa. Que seja o corpo com suas sinapses, ligação verdadeira com consciência e memória. Afinal uma célula, uma pessoa, um país um mundo como o nosso, precisam de memória para não esquecerem suas prioridades: para a saúde, a educação, a segurança, transporte e alimentação. Para não se perderem dentro de suas tarefas de sobrevivência e não perpetuarem o esquecimento das verdadeiras prioridades.
Voltando ao encontro em Manau: ao pé do ouvido, Sir John Eccles me fez a uma pergunta prontamente respondida por ele mesmo:"Sabe você por que fui estudar cérebro? Para entender a mim mesmo!" Quando o conheci, ele já havia se tornado um sábio.